2.6.10

Somos a grande ilha do silêncio de deus 
Chovam as estações soprem os ventos 
jamais hão-de passar das margens 
Caia mesmo uma bota cardada 
no grande reduto de deus e não conseguirá 
desvanecer a primitiva pegada 
É esta a grande humildade a pequena 
e pobre grandeza do homem 

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"

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12.5.10
IV - Álcool
Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longamente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me na alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo -
Luto, estrebucho...Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.



                                       Paris 1913 - maio 4

Mário de Sá-Carneiro
Poemas Completos
Edição Fernando Cabral Martins
Assírio & Alvim
2001
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30.4.10

Pouco tenho para alinhavar.

Dizer-te que estou longe

não apaga esta ausência que,

inelutavelmente,

nos distanciou.

 

Cercam-nos muros de silêncio

opresso.

A própria hera não ousa

na despudorada nudez branca

de paredes que interditam


a fantasia ao forasteiro

voraz.

O gesto tolhido,

o pretexto adiado

e a memória a estiolar.

 

Eduardo Pitta

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27.4.10

 

 

Estarei no programa E2, coordenado pela escola superior de jornalismo, a ser entrevistado por causa do meu novo livro. Este chama-se Manifesto Contra a Racionalidade e pode ser comprado em qualquer FNAC, Bulhosa/Leitura e outras casas do livro pelo país.

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25.4.10

Era uma vez um país 
onde entre o mar e a guerra 
vivia o mais infeliz 
dos povos à beira-terra.

 

Onde entre vinhas sobredos 
vales socalcos searas 
serras atalhos veredas 
lezírias e praias claras 
um povo se debruçava 
como um vime de tristeza 
sobre um rio onde mirava 
a sua própria pobreza.

 

Era uma vez um país 
onde o pão era contado 
onde quem tinha a raiz 
tinha o fruto arrecadado 
onde quem tinha o dinheiro 
tinha o operário algemado 
onde suava o ceifeiro 
que dormia com o gado 
onde tossia o mineiro 
em Aljustrel ajustado 
onde morria primeiro 
quem nascia desgraçado.

 

(...)

 

José Carlos Ary dos Santos

As Portas que Abril abriu.

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8.4.10

porque saltam e caem tanto, as crianças?

voltamos sempre ao mesmo tema.

como são ingénuas e admiráveis

os temas recorrentes não ilustram versos

talvez se o mundo fosse delas fossemos mais coloridos

a maternidade fere a poesia. ventre fértil, poema inútil

a maneira feliz como riem, mesmo que sem dentes

dizermos que não é um sim precipitado

mas são porcas, sujam tudo e não querem saber

mas o quê? deves pensar que um bebé se alimenta a whiskey

os olhos apenas têm formas, como tudo

preferes fazer amor na minha cama ou na tua?

 

João Gomes de Almeida e Inês Leão

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nunca sei bem o que pensar de um careca.

os artistas acabaram com deus

queria ser mais poeta e menos romancista

e a inveja que tenho eu das pessoas que fazem bem várias coisas

não exageres. é um tipo normal. também lê os meus livros.

é difícil escrever-se bonito sobre coisas feias, mas tu

eu sou gordo, ele é careca. qual a diferença?

molhas as palavras e estende-las ao sol do norte

o gajo ouve heavy metal. imaginas o pessoa a ouvir sepultura?

como se toda a gente falasse só com pontos finais

vai morrer novo. bebe muito.

e gosto de ti, ainda que digas que portugal tem pulgas.

aposto que o nuno miguel guedes gosta mais de mim. escreve no meu blogue.

simples, como o que descreves.

 

João Gomes de Almeida e Inês Leão

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os teus lábios cospem a imortalidade das sílabas

uma vez hei-de te dizer

mas e as sílabas? os versos? as quadras?

e quando provares a gota da chuva que já foi neve

as minhas mãos contam as histórias das tuas

num só passo andar pelo mundo

as palavras nunca significaram nada para ti. sou uma natureza morta

ela ri apenas com um olhar, mas mesmo assim

podes dizer o que quiseres. não acreditas na poesia

como começámos aqui estamos.

a morte, o que interessa é a morte, vamos morrer - no amor da poesia

 

Inês Leão e João Gomes de Almeida

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3.2.10

 

Uma aula de poesia é sempre uma aula de poesia – e em Portugal infelizmente não há aulas de poesia. Ao que se diz, e parece que é mesmo verdade, somos o país da Europa com mais editoras, que mais livros por dia publica e dos que menos se lê também. No fundo, mais não somos do que uma grande contradição literária plantada na zona mais ocidental do velho continente, cada vez mais longe de uma Europa central culta e evoluída.

 

Mas ao menos ainda somos um país de poetas, de bons poetas. Que o diga o Eduardo Pitta que lançou recentemente pela Quetzal o seu «Aula de Poesia», uma colectânea de textos publicados nos últimos anos na revista Ler, entre outros órgãos de comunicação social.

 

Na minha opinião o leitor português não gosta de livros de poesia, gosta de antologias de poesia. Nós chegamos à livraria e não vamos comprar os dois pequenos livros de poesia do Peixoto, preferimos antes comprar uma antologia qualquer onde ele apareça, mesmo que gostemos dos poemas do Peixoto. Mas o que explica esta atitude?

 

Nunca fomos educados para gostar de poesia. Achamos lamechas, um tanto ou quanto parolo e acima de tudo antiquado. Mas gostamos de livros e numa boa biblioteca não pode faltar a poesia, portanto recorremos às antologias. Algo contra? Nem por isso, eu também gosto de antologias e acho que deviam ser feitas ainda mais.

 

Mas gostava também de viver num país que honra os seus poetas, que os estuda e que os ensina. Gostava de viver num país em que a poesia vende-se o que vendem os romances. Um país evoluído não pode viver de leitores brutamontes e pouco civilizados, para quem a poesia não é literatura. É caso para dizer que cada país tem os leitores que merece.

 

Na poesia os nossos leitores não merecem os autores que têm. É triste, mas é verdade. Houvesse mais gente a estudar e a divulgar as obras poéticas – houvessem mais Eduardo Pitta – e talvez o nosso panorama literário fosse um pouco menos nubloso.

 

Primeiro Editorial do Nicotina

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2.2.10

 

Podem ver a entrevista completa aqui

 

«Não acredito que os prémios, as traduções e outros êxitos devam ser as razões para a escrita. São alegrias que, quando se coadunam uma série de factores, podem acontecer ou não, depois da publicação. Assim sendo, creio que me falta fazer bastante. Um dos principais elementos que me leva a escrever é a vontade de dizer. Esse entusiasmo nasce de ideias de ideias concretas que tento traduzir através da linguagem. Desse modo, aquilo que motiva é cada uma dessas ideias, desses ideais. Com o passar do tempo e com o trabalho específico de cada livro, vão variando. Aquilo que espero é que continue a encontrar essas razões para escrever. Nesse aspecto, creio-me optimista, uma vez que o mundo é imenso de motivos e apaixono-me com facilidade.» José Luís Peixoto

 

Nicotina Magazine

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26.1.10

VIMOS TODOS OS FILMES

 

Vimos todos os filmes
mas ainda não sabemos o fim de nenhum,
somos como a luz que desconhece
a própria velocidade.
Os relógios são a decoração doméstica
da angústia, damos corda
aos que precisam e não precisam
sem sabermos nada
da corda e da angústia.
Anos e anos amontoam-se
como nuvens ou tumores benignos
entre as nossas pequenas ciências
e o pressentimento de que
Deus escreve direito e nós
somos as linhas tortas.


IDENTIDADE

 

A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.


NÚMERO 5

 

Dei um passo atrás
e vi pela primeira vez
o número da minha porta.
No passeio, olhando
o metal gasto do algarismo
que há vinte e seis anos
sei que existe,
pensei em recuar um pouco mais
para ver todas as coisas que habito
e não compreendo.
Mas três passos depois
do passeio
o trânsito automóvel
impedia a perspectiva
e a sabedoria.

 

[in Duplo Império, edição de autor, 1999]

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21.1.10

O sorriso

 

Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

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Quase Nada

 

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz. 

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Sê paciente; espera

 

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

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11.12.09

a paixão pela escrita é mais pirosa do que a paixão pelas mulheres. podemos gostar de uma gaja mesmo sabendo que ela é feia, mas quando escrevemos alguma coisa pensamos sempre que está bem escrita. e quanto mais literário for o tipo de escrita pior. num romance ou numa tese não há muitos problemas, mas a nossa admiração pela nossa própria poesia é um misto entre a masturbação e o quadro do menino da lágrima.

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2.12.09

se a morte fosse fel inventado ontem,

seria vida do veneno de hoje.

se a morte fosse vida, se a morte,

serias fénix renascida amanhã.

 

se as palavras fossem verso,

serias quadra aprisionada hoje.

se a morte fosse poema, se a morte,

seria paixão renascida amanhã.

 

se o outono fosse inverno inventado ontem,

serias chuva do frio de hoje.

se a morte fossem espirros, se a morte,

seriamos uma esplanada renascida amanhã.

 

se o amor fosse palavra inventada ontem,

serias o veneno da paixão de hoje.

se a morte existisse, se a morte,

o sentimento invadiria as ruas amanhã.

 

 

JGA

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19.11.09

sou um tipo que pensa pouco nas consequências e muito nos prazeres, na satisfação, no imediato. hífen. muito no dia a dia. no que comemos, no que vivemos, no que beijamos, no que queremos e no que não gostamos, simplesmente porque não. sou um tipo simplesmente feliz com o que a vida tem para me dar, ainda com força para lutar para o que a vida não me quer dar. hífen. simplesmente porque não.

sou um tipo que ama, com a força de um amor que já não existe. hífen. porque existem carreiras, porque existem famílias, porque existem merdas. hífen. merdas outra vez.

sou um tipo que agora amo. hífen. sabem porquê?

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Ana Anes

Ana Anes nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1973, com o cordão umbilical bem preso no pescoço. Pode-se dizer que é uma sobrevivente (alegre) e, como tal, decidiu festejar a vida com um carácter irreverente, livre de constrangimentos e da opinião alheia, com uma faceta “bombista-literária” em que não se levando a sério - porque a vida já é demasiado pesada por si mesma...
Tem dois livros publicados, e já escreveu em vários órgãos de imprensa, como O Independente, Destak, DNA, Maxmen, Correio da Manhã e Playboy. Os seus blogues já deram muito que falar.
Ana Santiago

Primeiro queria ser médica de autópsias, depois teve a mania de ser jornalista e apaixonou-se pela rádio, acabou por dedicar-se ao serviço público e vive uma relação passional com Lisboa, como sede no poder local, onde editou a Agenda Cultural.
Licenciada em Comunicação, resignou-se ao facto de pouco mais saber fazer na vida do que comunicar, de manhã à noite, com toda a gente e, se mais ninguém houver por perto, com ela mesma. Acredita que é com o coração.
Cátia Simão

Foi em véspera de uma Sexta-Feira 13 de Setembro que sua mãe conheceu o rosto enrugado e percebeu que não era o David (sobre o qual) tanto conversara durante 9 meses. Daí para a frente foi muitos nomes a até se assentar como Cátia. Cresceu pensando que iria ser modista, mas não tinha muito jeito para fazer costuras e braguilhas. Virou-se para a arqueologia e seguiu outro caminho, a música, os filmes e a rádio. Seguiu-se dos seus amores de garota. Ainda hoje procura as agulhas do seu giradiscos portátil na bainha de um vestido rosa da moda. É muito feliz e gosta de sorrir.
Cláudia Köver

Tem os ensinamentos anglo-saxónicos cravados nas sardas e o amor às artes nas pontas dos dedos. O gosto pela manta das Relações Internacionais, adquirido pelos retalhos da herança familiar, consome-se nas almofadas do mestrado. Seguiu um coelho branco e calçou os saltos de jornalista EM que de momento lhe assentam os pés. Deixou pequenas pegadas nas páginas da “Pública”, da revista “Nós” do Jornal i, do Jornal Briefing e da televisão Arte. Incapaz de se manter fiel ao amor por um só par de sapatos, fez cursos em instituições europeias e teve aulas de representação em palco poeirento. Infelizmente, não teve dom para fazer dinheiro como viajante, mas soma este aos restantes vícios: desde a última tarde de 86 que não se inibe de sorrir e sonhar.
Inês Leão

Registada na bela freguesia de Mem Martins, Inês teve uma infância feliz, até ao dia que teve de abandonar o ballet por ter as pernas tortas (erro que nunca foi corrigido pelas botas ortopédicas ora azuis ora castanhas, que usou até tarde). Sempre gostou muito de desenhar, tendo como maiores influências os filmes clássicos da Disney, a Barbie e o seu pai. Quando teve de escolher a sua área optou por artes, por não ter matemática, não fazendo ideia que teria de gramar com geometria descritiva. É recém-chegada no design e o seu sonho é ser uma designer de sucesso, trabalhando a partir do seu iate privado na marina da Costa Nova, na Ria de Aveiro.
Nuno Miguel Guedes

Nuno Miguel Guedes nasceu em Lisboa em 1964. Jornalista, esteve no inicio de O Independente, de onde saiu em 1990 para a revista Kapa, de que foi co-fundador e co-afundador. Escreve para várias publicações e é colaborador pemanente da revista Visão (cultura) Letrista sempre que o deixam, guionista de televisão, bloguista, DJ ocasional, anglófilo, fanático da Académica e de livros. Nos tempos livres pratica o dry martini.
Pedro Rainho

Nasceu no iníco da década de 60, na vila de Sintra. Filho de família aristocrata, cedo forçou-se a desiludi-la. Aos 14 anos já estava ilegalmente no MRPP, onde foi companheiro de luta académica de Durão Barroso, na Faculdade de Direito. Mal acabou o curso viu nascer Abril e ingressou no jornalismo. Tornou-se barbudo e descobriu o fado, a monarquia e os touros. Por esses quatro motivos entrou com o Nuno Miguel Guedes no PPM e dedicou-se ao jornalismo como paquete de Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso n'O Independente. Escreveu três ensaios sobre literatura russa medieval, traduzidos em mandarím e tchecheno. Deu aulas na Independente e consumiu marijuana com o comandante Zapata, durante uma fotoreportagem. Tudo isto é mentira - mas bem que podia ser verdade, não tivesse ele nascido na década de oitenta e ser um jovem jornalista precário. É o que dá ser novo.
Tomás Vasques

Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de amigos, cerveja e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância e o autoritarismo. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.
 
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