
Estive há poucos dias a colocar alguma publicidade na minha pequena, mas muito bem cuidada, revista diária de cultura on-line, onde um dos nossos parceiros publicitários é a FNAC. Quando tive a seleccionar os banners que queria colocar no site, apareceram imediatamente os leitores de e-books - todos eles muito bonitos, em várias cores e ao preço de uma qualquer máquina fotográfica digital baratinha. No outro dia navegava pela internet e fui dar a um blogue português só de comparação de leitores de e-books. Já ontem à noite fui investigar o misterioso mundo dos torrents, e dei por mim a perceber que existem centenas de milhares de e-books gratuitos (provavelmente pirateados), que podemos fazer download em apenas alguns minutos. Por fim, hoje de manhã acordei e quando fui ver os mails das editoras para enviar para a redacção, encontrei um convite da Babel e da Samsung, para uma apresentação de um novo leitor de e-books na livraria da antiga Verbo.
Podemos dizer que gostamos mais do livro normal, que é bonito mostrarmos uma esbelta biblioteca na nossa sala ou escritório, que ler em papel tem um significado e um prazer muito mais forte do que ler em formato digital, ajudado por uma máquina que nos faz doer mais os olhos, que precisa de ser carregada todos os dias, que nos obriga a fazer downloads na internet e que para isso nos prende à ditadura do wireless. Tudo isto é verdade. Mas também é verdade que hoje mudamos muito mais de casa do que antigamente, logo não queremos andar com centenas ou milhares de livros às costas sempre que isso acontece, e também é verdade que estamos em crise e que o preço do e-book vai ser inevitavelmente mais barato do que o preço do livro convencional. Por fim, existe ainda a pirataria que inevitavelmente vai fazer a vida negra aos autores e aos editores - se pensarmos bem a indústria do cinema ainda tem as salas de cinema e os direitos televisivos, a música ainda tem as rádios e as televisões a pagarem direitos de autor e os músicos podem dar concertos, pelos quais são muito bem pagos. Mas e os escritores? Vão viver de quê? De apresentações e sessões de autógrafos?
Mas se hoje já somos muitos os autores e editores que nos preocupamos com a inevitabilidade da invasão do mercado livreiro pelos e-books, o mesmo não acontece com a imprensa. Todos sabemos que o jornal i está com graves problemas, que o SOL vai sobrevivendo como consegue, que a FHM acabou, que muitos jornais regionais estão a fechar e que o Público continua a dar prejuízo. Mas alguém já se perguntou porquê? Será porque o on-line já tem mais leitores do que o papel? Será porque a publicidade no on-line é muito mais barata? Será porque no on-line as pessoas conseguem em menos tempo absorver mais informação e apenas aquela que lhes interessa? Provavelmente será por tudo isto e ainda mais algumas coisas.
A ditadura do digital, do on-line e do social media vieram para ficar. Cada vez mais os jornais vão ter que inovar, construir formatos para leitores de e-books e ipad, apostar em força nas redes sociais e ir abandonando o papel. Isto porque durante muitos anos ainda podem existir muitas pessoas que gostem de ter livros em casa e dos ler em papel, mas isso não vai acontecer com a impressa - quantos de vocês gostam de amontoar jornais velhos na sala e na casa de banho?