21.4.10



Estive há poucos dias a colocar alguma publicidade na minha pequena, mas muito bem cuidada, revista diária de cultura on-line, onde um dos nossos parceiros publicitários é a FNAC. Quando tive a seleccionar os banners que queria colocar no site, apareceram imediatamente os leitores de e-books - todos eles muito bonitos, em várias cores e ao preço de uma qualquer máquina fotográfica digital baratinha. No outro dia navegava pela internet e fui dar a um blogue português só de comparação de leitores de e-books. Já ontem à noite fui investigar o misterioso mundo dos torrents, e dei por mim a perceber que existem centenas de milhares de e-books gratuitos (provavelmente pirateados), que podemos fazer download em apenas alguns minutos. Por fim, hoje de manhã acordei e quando fui ver os mails das editoras para enviar para a redacção, encontrei um convite da Babel e da Samsung, para uma apresentação de um novo leitor de e-books na livraria da antiga Verbo.

 

Podemos dizer que gostamos mais do livro normal, que é bonito mostrarmos uma esbelta biblioteca na nossa sala ou escritório, que ler em papel tem um significado e um prazer muito mais forte do que ler em formato digital, ajudado por uma máquina que nos faz doer mais os olhos, que precisa de ser carregada todos os dias, que nos obriga a fazer downloads na internet e que para isso nos prende à ditadura do wireless. Tudo isto é verdade. Mas também é verdade que hoje mudamos muito mais de casa do que antigamente, logo não queremos andar com centenas ou milhares de livros às costas sempre que isso acontece, e também é verdade que estamos em crise e que o preço do e-book vai ser inevitavelmente mais barato do que o preço do livro convencional. Por fim, existe ainda a pirataria que inevitavelmente vai fazer a vida negra aos autores e aos editores - se pensarmos bem a indústria do cinema ainda tem as salas de cinema e os direitos televisivos, a música ainda tem as rádios e as televisões a pagarem direitos de autor e os músicos podem dar concertos, pelos quais são muito bem pagos. Mas e os escritores? Vão viver de quê? De apresentações e sessões de autógrafos?

 

Mas se hoje já somos muitos os autores e editores que nos preocupamos com a inevitabilidade da invasão do mercado livreiro pelos e-books, o mesmo não acontece com a imprensa. Todos sabemos que o jornal i está com graves problemas, que o SOL vai sobrevivendo como consegue, que a FHM acabou, que muitos jornais regionais estão a fechar e que o Público continua a dar prejuízo. Mas alguém já se perguntou porquê? Será porque o on-line já tem mais leitores do que o papel? Será porque a publicidade no on-line é muito mais barata? Será porque no on-line as pessoas conseguem em menos tempo absorver mais informação e apenas aquela que lhes interessa? Provavelmente será por tudo isto e ainda mais algumas coisas.

 

A ditadura do digital, do on-line e do social media vieram para ficar. Cada vez mais os jornais vão ter que inovar, construir formatos para leitores de e-books e ipad, apostar em força nas redes sociais e ir abandonando o papel. Isto porque durante muitos anos ainda podem existir muitas pessoas que gostem de ter livros em casa e dos ler em papel, mas isso não vai acontecer com a impressa - quantos de vocês gostam de amontoar jornais velhos na sala e na casa de banho?

link do postPor João Gomes de Almeida, às 17:49  comentar

De Alexandre Guerreiro a 21 de Abril de 2010 às 20:43
Sinceramente, pensando no assunto "a frio" acho que o e-book seria o remédio ideal para levar a FNAC a falir, o que até seria merecido tal o regime de monopólio que tenta implementar em Portugal. Até a Bertrand foi negociada recentemente fruto do abuso da posição dominante feita pela FNAC. Tenho saudades das pequenas livrarias de esquina onde por vezes tínhamos agradáveis surpresas. Actualmente, se não há na FNAC, nem na Amazon, é muito difícil encontrar noutro lado qualquer.
Por outro lado, concordo com a descrição que fazes da leitura de livros em formato de... livro. O e-book não tem nada a ver com este modelo e tudo acaba por ter um sabor tão virtual que perde a piada. Sou a favor do virtual enquanto solução para algo que se quer rápido e não prolongado como a leitura do livro, ou a conversa com um amigo.
Depois, ao contrário de outras artes, como o cinema ou a música, acho difícil a escrita através do livro conseguir reinventar-se. Livro é livro, ponto final.
É ingrato o destino que o livro e os jornais estão a ter, mas no caso dos primeiros, há que reconhecer que são praticados preços verdadeiramente usurários (tal como no cinema e na música) e se o consumidor quiser ter acesso ao maior número de conteúdos possíveis, então tem mesmo que recorrer a outras soluções, ainda que isso implique a morte do formato original das coisas. É uma questão de "sobrevivência cultural"!

Abc

Ana Anes

Ana Anes nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1973, com o cordão umbilical bem preso no pescoço. Pode-se dizer que é uma sobrevivente (alegre) e, como tal, decidiu festejar a vida com um carácter irreverente, livre de constrangimentos e da opinião alheia, com uma faceta “bombista-literária” em que não se levando a sério - porque a vida já é demasiado pesada por si mesma...
Tem dois livros publicados, e já escreveu em vários órgãos de imprensa, como O Independente, Destak, DNA, Maxmen, Correio da Manhã e Playboy. Os seus blogues já deram muito que falar.
Ana Santiago

Primeiro queria ser médica de autópsias, depois teve a mania de ser jornalista e apaixonou-se pela rádio, acabou por dedicar-se ao serviço público e vive uma relação passional com Lisboa, como sede no poder local, onde editou a Agenda Cultural.
Licenciada em Comunicação, resignou-se ao facto de pouco mais saber fazer na vida do que comunicar, de manhã à noite, com toda a gente e, se mais ninguém houver por perto, com ela mesma. Acredita que é com o coração.
Cátia Simão

Foi em véspera de uma Sexta-Feira 13 de Setembro que sua mãe conheceu o rosto enrugado e percebeu que não era o David (sobre o qual) tanto conversara durante 9 meses. Daí para a frente foi muitos nomes a até se assentar como Cátia. Cresceu pensando que iria ser modista, mas não tinha muito jeito para fazer costuras e braguilhas. Virou-se para a arqueologia e seguiu outro caminho, a música, os filmes e a rádio. Seguiu-se dos seus amores de garota. Ainda hoje procura as agulhas do seu giradiscos portátil na bainha de um vestido rosa da moda. É muito feliz e gosta de sorrir.
Cláudia Köver

Tem os ensinamentos anglo-saxónicos cravados nas sardas e o amor às artes nas pontas dos dedos. O gosto pela manta das Relações Internacionais, adquirido pelos retalhos da herança familiar, consome-se nas almofadas do mestrado. Seguiu um coelho branco e calçou os saltos de jornalista EM que de momento lhe assentam os pés. Deixou pequenas pegadas nas páginas da “Pública”, da revista “Nós” do Jornal i, do Jornal Briefing e da televisão Arte. Incapaz de se manter fiel ao amor por um só par de sapatos, fez cursos em instituições europeias e teve aulas de representação em palco poeirento. Infelizmente, não teve dom para fazer dinheiro como viajante, mas soma este aos restantes vícios: desde a última tarde de 86 que não se inibe de sorrir e sonhar.
Inês Leão

Registada na bela freguesia de Mem Martins, Inês teve uma infância feliz, até ao dia que teve de abandonar o ballet por ter as pernas tortas (erro que nunca foi corrigido pelas botas ortopédicas ora azuis ora castanhas, que usou até tarde). Sempre gostou muito de desenhar, tendo como maiores influências os filmes clássicos da Disney, a Barbie e o seu pai. Quando teve de escolher a sua área optou por artes, por não ter matemática, não fazendo ideia que teria de gramar com geometria descritiva. É recém-chegada no design e o seu sonho é ser uma designer de sucesso, trabalhando a partir do seu iate privado na marina da Costa Nova, na Ria de Aveiro.
Nuno Miguel Guedes

Nuno Miguel Guedes nasceu em Lisboa em 1964. Jornalista, esteve no inicio de O Independente, de onde saiu em 1990 para a revista Kapa, de que foi co-fundador e co-afundador. Escreve para várias publicações e é colaborador pemanente da revista Visão (cultura) Letrista sempre que o deixam, guionista de televisão, bloguista, DJ ocasional, anglófilo, fanático da Académica e de livros. Nos tempos livres pratica o dry martini.
Pedro Rainho

Nasceu no iníco da década de 60, na vila de Sintra. Filho de família aristocrata, cedo forçou-se a desiludi-la. Aos 14 anos já estava ilegalmente no MRPP, onde foi companheiro de luta académica de Durão Barroso, na Faculdade de Direito. Mal acabou o curso viu nascer Abril e ingressou no jornalismo. Tornou-se barbudo e descobriu o fado, a monarquia e os touros. Por esses quatro motivos entrou com o Nuno Miguel Guedes no PPM e dedicou-se ao jornalismo como paquete de Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso n'O Independente. Escreveu três ensaios sobre literatura russa medieval, traduzidos em mandarím e tchecheno. Deu aulas na Independente e consumiu marijuana com o comandante Zapata, durante uma fotoreportagem. Tudo isto é mentira - mas bem que podia ser verdade, não tivesse ele nascido na década de oitenta e ser um jovem jornalista precário. É o que dá ser novo.
Tomás Vasques

Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de amigos, cerveja e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância e o autoritarismo. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.