29.12.08

Entraste na minha vida sem eu perceber porquê. Poderia até ter premeditado uma conquista, um amor repentino, uma paixão forte, ou um suspiro do coração, daqueles que são como que uma rajada de vento que refresca tudo até à alma. Chegaste e não pediste por favor para entrar, simplesmente chegaste e eu apercebi-me e ainda não sabia porque havias chegado. Não é que hoje já o perceba, não é que hoje eu compreenda o que faço aqui, como tudo começou, o que me levou até ti, o que te levou até mim. Não há pessoas no mundo se não nós, pelo menos no nosso mundo, não.

Nasceu assim este sentimento que nos invade e talvez por isso tenha tantas esperanças que nunca morra – é como que obra de algo transcendente, é como que uma própria transcendência, mais, trata-se de um rasgo de ousadia, juventude, rebeldia, de dois habitantes do mundo, para com o próprio mundo. Pior, trata-se de contrariar a vida, o status, a ordem invertida das coisas do mundo moderno, maldito mundo. No fundo, trata-se de amor.

Mas que palavra tão cara essa do amor. Não é que hoje em dia seja assim tão cara, pelo contrário. Falamos de amor como quem fala de outra coisa qualquer, dizemos que amamos com a mesma facilidade com que dizemos “está bom tempo”. Depois o tempo passa e o tempo na cidade passa depressa, vem o Outono e o primeiro frio, vem o Inverno e as chuvas que nos lavam a alma e nos levam os sentimentos, depois chega a Primavera e tudo é colorido, tristemente colorido para um coração que deixa de amar e Fim. Tudo acabou: chegou o Verão. No Verão vivemos mais e por isso amamos menos, isto quando o amor não é verdadeiro, cúmplice e doentio. No fundo, quando não é um verdadeiro amor.

Eu sei que contigo posso falar de amor, isto porque entraste na minha vida sem eu perceber porquê. E volto a entrar no pleonasmo, deixo as metáforas estacionadas algures na narrativa dos contos de paixões imperfeitas e digo: o que sinto é amor. Mas foi tudo tão rápido! Ainda há pouco dizia que não percebo como entraste na minha vida e agora já falo de boca cheia de amor. Percorro o teu corpo, os teus lábios e entro dentro do teu coração e assim solto novamente as amarras do sentimento, do sentimento puro que me faz escrever e como alguém diria, escrever é perder. Então perco-me, morro, soluço e apaixono-me. Perco-me de amores por algo que não sei como entrou na minha vida. E que importa isso?

Importa que já estás cá dentro, que já és parte da minha vida, mais, como diria a Florbela, já és toda a minha vida. E agora fumo cigarros, mas já não na esperança de uma morte lenta. Fumo porque gosto de fumar enquanto olho para ti, enquanto penso que não te vais esfumar como a cinza que me cai das mãos. Entraste na minha vida sem eu perceber porquê e eu gostei – só por isso digo amor.

link do postPor João Gomes de Almeida, às 02:44  comentar

De Tiago Gonçalves a 29 de Dezembro de 2008 às 15:06
Meu caro amigo,
Gostava de ter estado presente, no entanto, outras obrigações (políticas) se colocaram pelo meio e foi mesmo de todo impossível estar presente.
Mas já sabes quando quiseres vir falar do teu Livro aqui ao burgo, estarei na primeira fila. Quando editares o próximo livro, espero que entretanto, que será também um sucesso, vou ver se não falho à apresentação de novo ;)
Um abraço

De Diana Balis a 1 de Janeiro de 2009 às 15:16
"Amar...O vento bate nas janelas e de repente algo se move. É uma libélula deslumbrada com o tempo, eu pisco os olhos e a lágrima cai suave...a mariposa ligeira vem beber minhas gotas na face. O amor como eu perplexa, imóvel, aparece, o amor de libélula..."
Você me inspirou, adorei seu texto, parabéns!
Beijos, Feliz 2009 saúde e harmonia.

Ana Anes

Ana Anes nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1973, com o cordão umbilical bem preso no pescoço. Pode-se dizer que é uma sobrevivente (alegre) e, como tal, decidiu festejar a vida com um carácter irreverente, livre de constrangimentos e da opinião alheia, com uma faceta “bombista-literária” em que não se levando a sério - porque a vida já é demasiado pesada por si mesma...
Tem dois livros publicados, e já escreveu em vários órgãos de imprensa, como O Independente, Destak, DNA, Maxmen, Correio da Manhã e Playboy. Os seus blogues já deram muito que falar.
Ana Santiago

Primeiro queria ser médica de autópsias, depois teve a mania de ser jornalista e apaixonou-se pela rádio, acabou por dedicar-se ao serviço público e vive uma relação passional com Lisboa, como sede no poder local, onde editou a Agenda Cultural.
Licenciada em Comunicação, resignou-se ao facto de pouco mais saber fazer na vida do que comunicar, de manhã à noite, com toda a gente e, se mais ninguém houver por perto, com ela mesma. Acredita que é com o coração.
Cátia Simão

Foi em véspera de uma Sexta-Feira 13 de Setembro que sua mãe conheceu o rosto enrugado e percebeu que não era o David (sobre o qual) tanto conversara durante 9 meses. Daí para a frente foi muitos nomes a até se assentar como Cátia. Cresceu pensando que iria ser modista, mas não tinha muito jeito para fazer costuras e braguilhas. Virou-se para a arqueologia e seguiu outro caminho, a música, os filmes e a rádio. Seguiu-se dos seus amores de garota. Ainda hoje procura as agulhas do seu giradiscos portátil na bainha de um vestido rosa da moda. É muito feliz e gosta de sorrir.
Cláudia Köver

Tem os ensinamentos anglo-saxónicos cravados nas sardas e o amor às artes nas pontas dos dedos. O gosto pela manta das Relações Internacionais, adquirido pelos retalhos da herança familiar, consome-se nas almofadas do mestrado. Seguiu um coelho branco e calçou os saltos de jornalista EM que de momento lhe assentam os pés. Deixou pequenas pegadas nas páginas da “Pública”, da revista “Nós” do Jornal i, do Jornal Briefing e da televisão Arte. Incapaz de se manter fiel ao amor por um só par de sapatos, fez cursos em instituições europeias e teve aulas de representação em palco poeirento. Infelizmente, não teve dom para fazer dinheiro como viajante, mas soma este aos restantes vícios: desde a última tarde de 86 que não se inibe de sorrir e sonhar.
Inês Leão

Registada na bela freguesia de Mem Martins, Inês teve uma infância feliz, até ao dia que teve de abandonar o ballet por ter as pernas tortas (erro que nunca foi corrigido pelas botas ortopédicas ora azuis ora castanhas, que usou até tarde). Sempre gostou muito de desenhar, tendo como maiores influências os filmes clássicos da Disney, a Barbie e o seu pai. Quando teve de escolher a sua área optou por artes, por não ter matemática, não fazendo ideia que teria de gramar com geometria descritiva. É recém-chegada no design e o seu sonho é ser uma designer de sucesso, trabalhando a partir do seu iate privado na marina da Costa Nova, na Ria de Aveiro.
João Gomes de Almeida

Divide o tempo entre a editora e revista on-line Nicotina, o Perguntas Proibidas na Rádio Europa e o seu pequeno bar / livraria Les Enfants Terribles, no Saldanha Residence. Já lançou dois livros, quer casar e ter filhos.
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Nuno Miguel Guedes

Nuno Miguel Guedes nasceu em Lisboa em 1964. Jornalista, esteve no inicio de O Independente, de onde saiu em 1990 para a revista Kapa, de que foi co-fundador e co-afundador. Escreve para várias publicações e é colaborador pemanente da revista Visão (cultura) Letrista sempre que o deixam, guionista de televisão, bloguista, DJ ocasional, anglófilo, fanático da Académica e de livros. Nos tempos livres pratica o dry martini.
Pedro Rainho

Nasceu no iníco da década de 60, na vila de Sintra. Filho de família aristocrata, cedo forçou-se a desiludi-la. Aos 14 anos já estava ilegalmente no MRPP, onde foi companheiro de luta académica de Durão Barroso, na Faculdade de Direito. Mal acabou o curso viu nascer Abril e ingressou no jornalismo. Tornou-se barbudo e descobriu o fado, a monarquia e os touros. Por esses quatro motivos entrou com o Nuno Miguel Guedes no PPM e dedicou-se ao jornalismo como paquete de Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso n'O Independente. Escreveu três ensaios sobre literatura russa medieval, traduzidos em mandarím e tchecheno. Deu aulas na Independente e consumiu marijuana com o comandante Zapata, durante uma fotoreportagem. Tudo isto é mentira - mas bem que podia ser verdade, não tivesse ele nascido na década de oitenta e ser um jovem jornalista precário. É o que dá ser novo.
Tomás Vasques

Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de amigos, cerveja e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância e o autoritarismo. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.