14.10.09

 

Há por aí uma nova classe social a florescer, facto do qual os psicosociólogos não se deviam alhear. Trata-se da classe social dos "eu gostava de ser", aquilo ao qual os nossos amigos anglo-saxónicos gostam de chamar os "wanna be". Esta classe teve os primeiros precursores durante a década de noventa e agora no início do milénio parece estar a crescer a olhos vistos. É vê-los por aí, da Fontes Pereira de Melo ao final da Av. da Liberdade, a passearem as malas dos portáteis enquanto vestem fatos às riscas com três botões.

 

Se quisesse ser um tipo snobe, que não sou, diria que se trata de uma pura motivação genética, visto os "eu gostava de ser" serem herdeiros das novas elites económicas portuguesas, essas sim legítimas herdeiras de sangue da parolice e do provincianismo da primeira república. Digamos que os "eu gostava de ser" são o produto mais parvo da bela da sociedade de mercado em que vivemos: são no fundo o puro emergir da superficialidade.

 

Mas superficialidade porquê? Vamos lá tentar explicar. Um "eu gostava de ser" tem como primeira característica o facto de gostar de vir a ser alguma coisa, que tem noção de que não é. Pleonasmo pensam vocês, talvez. Mas este é o principal elemento identificador, visto que perante este panorama os "eu gostava de ser" optam por fazerem cópias superficiais daquilo que efectivamente gostavam de ser. Ou seja, optam pela aparência em prol da substância. Assim nasce a superficialidade.

 

Um "eu gostava de ser" veste um fato (normalmente de mau gosto), usa pda, tem uma licenciatura na católica e três MBAs, mas nunca leu o Primo Basílio, nem a Morgadinha dos Canaviais, nem faz ideia quem é Cohn-Bendit, nunca foi à ópera, não sabe distinguir um Bushmills de um Jameson e pensa que num cachimbo se pode fumar tabaco de enrolar. Falta substância a esta malta. Cultivem-se mais e pensem menos nos MBAs.

link do postPor João Gomes de Almeida, às 16:19  comentar

De nunodc a 14 de Outubro de 2009 às 17:04
Caro João,

um post deste teor só te coloca na mesma classes dos "wannabes".

Cada um tem a sua cor, não é por ter um fato com mais ou menos riscas ou mais ou menos botões que se tem mais ou menos mérito. Assim como alguém que leu o Primo Basílio não é superior ou inferior a ninguém.

Se as pessoas estão confortáveis com o que são, então qual o problema..?
Criticas a superficialidade mas estás a incorrer no mesmo erro.

E todos seremos "wannabes", para todos os efeitos. Conheces alguém que esteja plenamente satisfeito com a vida..?

De João Gomes de Almeida a 14 de Outubro de 2009 às 18:21
Caro Nuno,

Repara que utilizei imagens figurativas apenas. Talvez isso torne o artigo mais agressivo, mas nem por isso menos verdadeiro.

Abraço

De nunodc a 15 de Outubro de 2009 às 16:08
Claro que sim, João, e eu compreendi-o.

Também eu me revolto contra inúmeras situações/pessoas no dia-a-dia, mas cada um é como é. Apenas isso.

Abraço.

De Sara a 14 de Outubro de 2009 às 17:42
João,

Também, e sobretudo, é de pessoas com MBA's que portugal precisa. Não é muito útil perder tempo a dissertar sobre o mau gosto de fatos às riscas. E há muitas mais formas de cultura do que perceber de whisky ou de cachimbos. E a maior superficiliadade nisto tudo, é fazeres uma análise redutora como esta!

Beijo

Sara

De João Gomes de Almeida a 14 de Outubro de 2009 às 18:24
Sara,

As dissertações e a cultura não nasceram para serem úteis, para serem práticas, para terem um objectivo material, pelo contrário. Aliás esta análise é obviamente redutora, não tinha sentido se não fosse.

Este artigo nasce como um gozo. O objectivo é mesmo esse, ser um escárnio.

Bj.

De Sabina a 16 de Outubro de 2009 às 13:41
João
O texto está brilhante. Mas acontece sempre isto. Para ilustrar este tipo de texto, temos sempre que concretizar e dar exemplos. Acontece que esses exemplos são pessoais e óbvios para quem os escreve e, às vezes, desconhecidos do leitor. Por falta de poder de encaixe ou por insegurança existe sempre quem nos acuse de ter feito uma análise redutora, esquecendo a ideia base que é fantástica.
Eu pessoalmente não sei distinguir um Bushmills de um Jameson, não gosto de uísque (é de uísque que falamos, certo?) e sei que estou longe pertencer à geração “wanna be". Também existem mulheres “wanna be”, certo?

De Ricardo a 30 de Outubro de 2009 às 10:50
"mas nunca leu o Primo Basílio, nem a Morgadinha dos Canaviais, nem faz ideia quem é Cohn-Bendit , nunca foi à ópera, não sabe distinguir um Bushmills de um Jameson e pensa que num cachimbo se pode fumar tabaco de enrolar. Falta substância a esta malta. Cultivem-se mais e pensem menos nos MBAs "

Nunca li Primo Basílio, Morgadinha dos Canaviais, não faço ideia quem é Cohn-Bendit nunca fui à ópera, apenas distingo um Bushmills de um Jameson pelo rótulo, mas vá lá, sei que não se pode fumar tabaco de enrolar num cachimbo. Por acaso até nem tenho nenhum MBA , mas podia ter e até nem me importava. Cuidado com as suas palavras, dão a entender que ler tudo isso que disse (ou outras literaturas afins) e ir à ópera faz de nós seres humanos superiores, superiores a quem não "se cultiva". Não deve ter sido essa a sua intenção, acredito, mas foi essa a consequência. É melhor um leitor de Eça ou Camilo do que um bombeiro que apaga fogos, do que o homem do lixo que limpa as ruas que nós sujamos, do que o homem das obras que faz as casas onde dormimos, do que a enfermeira que nos dá alento depois da operação, do que a mulher a dias que nos passa a roupa a ferro, etc , etc , etc ...? Resume-se a forma como cada um alcança a felicidade e cada um é livre de o fazer à sua maneira. Trabalho e prazer é a vida.

Abraço

Ana Anes

Ana Anes nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1973, com o cordão umbilical bem preso no pescoço. Pode-se dizer que é uma sobrevivente (alegre) e, como tal, decidiu festejar a vida com um carácter irreverente, livre de constrangimentos e da opinião alheia, com uma faceta “bombista-literária” em que não se levando a sério - porque a vida já é demasiado pesada por si mesma...
Tem dois livros publicados, e já escreveu em vários órgãos de imprensa, como O Independente, Destak, DNA, Maxmen, Correio da Manhã e Playboy. Os seus blogues já deram muito que falar.
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Primeiro queria ser médica de autópsias, depois teve a mania de ser jornalista e apaixonou-se pela rádio, acabou por dedicar-se ao serviço público e vive uma relação passional com Lisboa, como sede no poder local, onde editou a Agenda Cultural.
Licenciada em Comunicação, resignou-se ao facto de pouco mais saber fazer na vida do que comunicar, de manhã à noite, com toda a gente e, se mais ninguém houver por perto, com ela mesma. Acredita que é com o coração.
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Foi em véspera de uma Sexta-Feira 13 de Setembro que sua mãe conheceu o rosto enrugado e percebeu que não era o David (sobre o qual) tanto conversara durante 9 meses. Daí para a frente foi muitos nomes a até se assentar como Cátia. Cresceu pensando que iria ser modista, mas não tinha muito jeito para fazer costuras e braguilhas. Virou-se para a arqueologia e seguiu outro caminho, a música, os filmes e a rádio. Seguiu-se dos seus amores de garota. Ainda hoje procura as agulhas do seu giradiscos portátil na bainha de um vestido rosa da moda. É muito feliz e gosta de sorrir.
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Tem os ensinamentos anglo-saxónicos cravados nas sardas e o amor às artes nas pontas dos dedos. O gosto pela manta das Relações Internacionais, adquirido pelos retalhos da herança familiar, consome-se nas almofadas do mestrado. Seguiu um coelho branco e calçou os saltos de jornalista EM que de momento lhe assentam os pés. Deixou pequenas pegadas nas páginas da “Pública”, da revista “Nós” do Jornal i, do Jornal Briefing e da televisão Arte. Incapaz de se manter fiel ao amor por um só par de sapatos, fez cursos em instituições europeias e teve aulas de representação em palco poeirento. Infelizmente, não teve dom para fazer dinheiro como viajante, mas soma este aos restantes vícios: desde a última tarde de 86 que não se inibe de sorrir e sonhar.
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João Gomes de Almeida

Divide o tempo entre a editora e revista on-line Nicotina, o Perguntas Proibidas na Rádio Europa e o seu pequeno bar / livraria Les Enfants Terribles, no Saldanha Residence. Já lançou dois livros, quer casar e ter filhos.
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Nuno Miguel Guedes nasceu em Lisboa em 1964. Jornalista, esteve no inicio de O Independente, de onde saiu em 1990 para a revista Kapa, de que foi co-fundador e co-afundador. Escreve para várias publicações e é colaborador pemanente da revista Visão (cultura) Letrista sempre que o deixam, guionista de televisão, bloguista, DJ ocasional, anglófilo, fanático da Académica e de livros. Nos tempos livres pratica o dry martini.
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Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de amigos, cerveja e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância e o autoritarismo. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.