17.8.09

Fiquei espantado pela forma como o Vasco Pulido Valente reagiu à iniciativa do 31 da armada de hastear a bandeira monárquica na varanda da Câmara Municipal de Lisboa. Antes de mais gostava de fazer uma declaração de interesses, eu gosto do VPV, eu leio o VPV e acho que o próprio VPV deu uma enorme contribuição, enquanto historiador, para desmistificar muitos dos mitos da república - na verdade o povo não queria a república, ninguém ouviu o povo sobre o assunto e nunca o partido republicano teve força para ser governo - VPV ajuda-nos a perceber isso nas suas obras. Mais do que isso, VPV é autor da última biografia de Henrique de Paiva Couceiro, o qual apelida de "o herói português". Por estes motivos e muitos outros, merece a minha estima e consideração.

No entanto, gostava de contar uma história ao VPV. Pelo que vou tentar ser breve, pelo menos tão breve como me permite o facto de ter que contar uma história, a um historiador, vejam lá. Não sei se vou ter sucesso - mas pelo menos tentei. Nunca fui um monárquico de meia-tigela.

Algures em Sintra vive uma família. O pai chama-se Duarte, nome herdado de seu pai Duarte Nuno, a mãe chama-se Isabel, têm três filhos, dois rapazes e uma rapariga. O mais velho é o Afonso, depois há o Dinis e por fim a Maria Francisca, nomes tipicamente portugueses.

Duarte nasceu com uma responsabilidade acrescida sobre os ombros, diziam-lhe que era pretendente ao trono, herdeiro da História de um povo, o povo português. Duarte não teve uma infância fácil, nasceu no exílio na Suíça - exilado da república e exilado da ditadura. Os seus padrinhos de nascimento foram o Papa Pio XII e a Rainha D. Amélia, mulher do Rei D. Carlos. Na década de 50 volta a Portugal, estudou em colégios privados e depois no colégio militar. Cumpriu o serviço militar em Angola, tal como muitos outros portugueses,  infelizmente alguns lá ficaram.

Ainda antes do 25 de Abril Duarte, tal como muitos jovens da sua geração, apoiou vários movimentos que reclamavam a autodeterminação das colónias. Mais tarde, já em liberdade, foi um activista decisivo, e de reconhecido mérito, na campanha Timor 87. Enquanto ser humano teve a oportunidade de privar e ter como amigos importantes figuras, de todas as áreas e espectros políticos, importantes para Portugal. Duarte dedicou a sua vida a ser uma pessoa séria e coerente.

Vivemos actualmente num país em que o Primeiro-Ministro mandou fechar a faculdade onde andou, o mesmo Primeiro-Ministro que é investigado pelas autoridades inglesas num escândalo sobre corrupção. O Presidente da República também já foi Primeiro-Ministro, e teve como seu Ministro um ex-banqueiro que agora está preso e nesse mesmo banco, um outro Ministro havia, que está a ser investigado e que o Presidente da República colocou como Conselheiro de Estado. Isto é a república, supostamente investida de poderes equalitários e de ética, a chamada ética republicana.

É preciso lembrar que igualdade é o chefe de estado ser o primeiro entre os iguais, ser o verdadeiro árbitro e moderador do sistema, independente e imparcial - ser do povo, pelo povo e de todo o povo. Cavaco Silva foi eleito por cerca de dois milhões e setessentos mil portugueses - somos cerca de dez milhões.

Quando o VPV diz que é preciso um pretendente está errado. O pretendente existe e vive como qualquer português médio, em Sintra, com a família - estudou, esteve na tropa e até foi à guerra. Leu, informou-se e tem opiniões políticas. Mas mais do que isso tem uma enorme vantagem relativamente aos políticos, classe à qual nunca ambicionou pertencer, é sério e é reconhecido por isso. Como Chefe de Estado seria imparcial, sem ter que fazer favores às empresas que lhe deram emprego, ao partido que o ajudou a eleger, aos comentadores políticos que o bajularam e aos grupos económicos que pagaram a sua campanha.

Como um amigo me disse ontem, "o sistema democrático estará sempre seguro, nem que para isso tenhamos que ir às três da manhã entregar uma coroa a uma criança em Sintra". Pois é, D. Duarte de Bragança tem um filho.

link do postPor João Gomes de Almeida, às 14:42  comentar

De Nuno Castelo-Branco a 17 de Agosto de 2009 às 15:49
Na verdade, D. Duarte não é pretendente a coisa alguma. Ele é, isso sim, o sucessor dos reis que fizeram Portugal. Pretendente a qualquer coisa é um certo senhor habitante na zona de Belém e que pelo que parece, é perito em investir em acções FORA da bolsa. Lá sabem, estes doutores em finanças...

De Ana Lista a 17 de Agosto de 2009 às 19:27
Vai pentear macacos, pá!

De Mendo Henriques a 17 de Agosto de 2009 às 16:06
Eu também sou fã do VPV, por vários motivos. Sucede que ele está sempre mal disposto com a história de Portugal. Acha que é a pedagogia dele, o contributo para a educação cívica do país. Acho que lhe devemos agradecer isso e no caso da bandeira, ele aplicou a receita usual. Aí esteve bem o João em dizer "Olhe, Vasco, ás vezes a história muda! Mas nunca por mão dos historiadores!"

De João Távora a 17 de Agosto de 2009 às 17:32
Muito bem, João!

De prevencaodocrime a 17 de Agosto de 2009 às 18:48


www.alerta24.org



http://prevencaodocrime.blogs.sapo.pt/

De João Gomes de Almeida a 17 de Agosto de 2009 às 19:09
Obrigado a todos!

De Alves Pimenta a 17 de Agosto de 2009 às 19:25
"o povo não cria a república"

Não queria!

De João Gomes de Almeida a 17 de Agosto de 2009 às 19:50
não cria nem queria

De Alves Pimenta a 17 de Agosto de 2009 às 20:13
não cria na
não queria a

De João Gomes de Almeida a 17 de Agosto de 2009 às 20:15
Oh alves. Pareces o Galamba. Chato!

De Alves Pimenta a 17 de Agosto de 2009 às 20:56
No me lo digas. Safa!

De marta a 17 de Agosto de 2009 às 20:19
D. Duarte não é pretendente ao trono pela simples razão: a sua linha sucessória é a de D. Miguel que, foi obrigado a renunciar a quaisquer direitos dinásticos, exilando-se em seguida para Àustria. A linha legítima portuguesa é a que descende do Rei D. Pedro seu irmão e que termina em D. Manuel II. No entanto, D. Carlos tinha uma filha que legitimou e existem os descendentes desta linha dinástica, estes sim os legítimos. O que aconteceu, foi que Salazar quis que D, Duarte fosse o herdeiro do trono português e mandou-o vir da Suiça, tal como Franco ignorou O Pai do actual Rei de Espanha chamando o filho para Madrid, problema que ainda hoje desagrada a muitos monárquicos espanhóis. Em Portugal os monárquicos estão em guerra, razão pela qual, é impossível a sua concretização ,

De Historiador a 17 de Agosto de 2009 às 20:59
Incrível, essa erudição! A fonte é a Wikipedia ou as Seleções?

De Carlos Ribeiro a 17 de Agosto de 2009 às 23:31
O Senhor Duarte, que até pode ser uma boa pessoa, é unanimente reconhecido como um refinado pateta. Toda a gente sabe isso, a começar pelos monárquicos, não é? Quer um simples exemplo? Semanas antes da abertura da EXPO 98, foi ao ponto de dizer que a sua realização seria uma tragédia para o país, que não devia abrir. À época, ninguém lhe ligou nada porque, creia você ou não, todo o país ri dele e das ambições que alguns alimentam à sua prole. A monarquia é um cadáver adiado na cabeça de alguns nostálgicos. Se quer comparar os adiantamentos do rei Carlos e as vigarices das últimas décadas, até ao rei Manuel, "o último", com a República, podemos fazê-lo. Mas acho bem que se divirtam à vontade, como os golpes de mão dos meninos da Linha, a trocar bandeiras. Foi antes ou depois da discoteca?

De Carlos Ribeiro a 18 de Agosto de 2009 às 01:47
Pronto, está explicado. Leiam esta nota do "escritor" Rodrigo Moita de Deus, sobre o livrito do autor deste blog:

"Mulheres 2.0 é o espaço onde se materializa o mundo virtual. Somos, cada vez mais, as hiperligações que fazemos aos outros." Rodrigo Moita de Deus, escritor. Autor do livro “Será que as mulheres ainda acreditam em príncipes encantados?”

Amor com amor se paga...

De João Gomes de Almeida a 18 de Agosto de 2009 às 23:55
Caro amigo,

Eu sou monárquico há muito tempo. Muito antes de conhecer o Rodrigo.

De Ricardo Gomes Silva a 20 de Agosto de 2009 às 14:05
O VPV é apenas mais um "macaco" na imensa árvore das patacas desta republica.

Sendo verdade que o dito escreveu uns livrecos...que fez ele de realmente relevante até hoje, para além de dizer mal de tudo?

Acho piada que o dito diz nos tais livrecos que a elite republicana não prestava para nada e agora vem dizer mal do SAR...onde quer ele chegar?
Menos fizeram os cobardolas burgueses e oficiais de 1926 em instaurar uma republica que nunca o foi esquecendo que o contrário à republica é supostamente a monarquia

Pois é mas a "dor de cotovelo" e a inveja é tal que é preferivel viver na anarquia onde podem dizer que são os "melhores" do que viver numa sociedade justa onde os melhores o são efectivamente.
Dizem mal da republica mas não largam o vício

É que como ele próprio afirma..o povo foi posto de lado a seguir ao 1910 no concurso ao poder..pois é..é que o VPV nunca se considerou um do povo e nesse aspecto consegue ser mais aristocrata do que os verdadeiros aristocratas da Idade Média

O VPV que vá plantar batatas (se é que ele sequer sabe o que isso é)

bem haja

De Ricardo Gomes Silva a 20 de Agosto de 2009 às 14:18
...e mais se pode dizer aos supostos "republicanos" que por ai andam...coitaditos, mas que grande conto de fadas!

Nunca houve Republica em Portugal....nunca!
O que efectivamente houve foi um movimento burguês de direita que retirou o Rei da discussão social para impor fortes restrições aos movimentos sindicais.
Basta olhar para este aspecto para observar que assim se pode evocar a continuidade entre o Estado Novo e a I Republica.
Aliás o Estado Novo deve muito ás perturbações de 1931 em Espanha..a mesma republica espanhola que dá garantias idênticas aos exilados que a monarquia espanhola deu ao Paiva Couceiro (pois mas só falam em Paiva Couceiro, tal é a parcialidade).

Onde está o povo nas várias eleições e governos da Republica?

Não existe nem nunca existiu...o povo sempre foi omisso tal foi e é a ignorância pedante da maioria que confundem a sigla "infantaria, cavalaria e artilharia " com "liberdade, igualdade e fraternidade" ao ponto de ainda hoje se afirmar que a Republica é uma maravilha.
Se Portugal não estivesse na Europa seriamos tão maravilhosos como qualquer republiqueta da america latina.
Copiamos codigos e leis de monarquias, instituições da terra de sua majestade critérios de nações proto-imperiais e continuamos a defender a republica

Arre...que somos mesmo estupidos!

bem haja

Ana Anes

Ana Anes nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1973, com o cordão umbilical bem preso no pescoço. Pode-se dizer que é uma sobrevivente (alegre) e, como tal, decidiu festejar a vida com um carácter irreverente, livre de constrangimentos e da opinião alheia, com uma faceta “bombista-literária” em que não se levando a sério - porque a vida já é demasiado pesada por si mesma...
Tem dois livros publicados, e já escreveu em vários órgãos de imprensa, como O Independente, Destak, DNA, Maxmen, Correio da Manhã e Playboy. Os seus blogues já deram muito que falar.
Ana Santiago

Primeiro queria ser médica de autópsias, depois teve a mania de ser jornalista e apaixonou-se pela rádio, acabou por dedicar-se ao serviço público e vive uma relação passional com Lisboa, como sede no poder local, onde editou a Agenda Cultural.
Licenciada em Comunicação, resignou-se ao facto de pouco mais saber fazer na vida do que comunicar, de manhã à noite, com toda a gente e, se mais ninguém houver por perto, com ela mesma. Acredita que é com o coração.
Cátia Simão

Foi em véspera de uma Sexta-Feira 13 de Setembro que sua mãe conheceu o rosto enrugado e percebeu que não era o David (sobre o qual) tanto conversara durante 9 meses. Daí para a frente foi muitos nomes a até se assentar como Cátia. Cresceu pensando que iria ser modista, mas não tinha muito jeito para fazer costuras e braguilhas. Virou-se para a arqueologia e seguiu outro caminho, a música, os filmes e a rádio. Seguiu-se dos seus amores de garota. Ainda hoje procura as agulhas do seu giradiscos portátil na bainha de um vestido rosa da moda. É muito feliz e gosta de sorrir.
Cláudia Köver

Tem os ensinamentos anglo-saxónicos cravados nas sardas e o amor às artes nas pontas dos dedos. O gosto pela manta das Relações Internacionais, adquirido pelos retalhos da herança familiar, consome-se nas almofadas do mestrado. Seguiu um coelho branco e calçou os saltos de jornalista EM que de momento lhe assentam os pés. Deixou pequenas pegadas nas páginas da “Pública”, da revista “Nós” do Jornal i, do Jornal Briefing e da televisão Arte. Incapaz de se manter fiel ao amor por um só par de sapatos, fez cursos em instituições europeias e teve aulas de representação em palco poeirento. Infelizmente, não teve dom para fazer dinheiro como viajante, mas soma este aos restantes vícios: desde a última tarde de 86 que não se inibe de sorrir e sonhar.
Inês Leão

Registada na bela freguesia de Mem Martins, Inês teve uma infância feliz, até ao dia que teve de abandonar o ballet por ter as pernas tortas (erro que nunca foi corrigido pelas botas ortopédicas ora azuis ora castanhas, que usou até tarde). Sempre gostou muito de desenhar, tendo como maiores influências os filmes clássicos da Disney, a Barbie e o seu pai. Quando teve de escolher a sua área optou por artes, por não ter matemática, não fazendo ideia que teria de gramar com geometria descritiva. É recém-chegada no design e o seu sonho é ser uma designer de sucesso, trabalhando a partir do seu iate privado na marina da Costa Nova, na Ria de Aveiro.
João Gomes de Almeida

Divide o tempo entre a editora e revista on-line Nicotina, o Perguntas Proibidas na Rádio Europa e o seu pequeno bar / livraria Les Enfants Terribles, no Saldanha Residence. Já lançou dois livros, quer casar e ter filhos.
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Nuno Miguel Guedes

Nuno Miguel Guedes nasceu em Lisboa em 1964. Jornalista, esteve no inicio de O Independente, de onde saiu em 1990 para a revista Kapa, de que foi co-fundador e co-afundador. Escreve para várias publicações e é colaborador pemanente da revista Visão (cultura) Letrista sempre que o deixam, guionista de televisão, bloguista, DJ ocasional, anglófilo, fanático da Académica e de livros. Nos tempos livres pratica o dry martini.
Pedro Rainho

Nasceu no iníco da década de 60, na vila de Sintra. Filho de família aristocrata, cedo forçou-se a desiludi-la. Aos 14 anos já estava ilegalmente no MRPP, onde foi companheiro de luta académica de Durão Barroso, na Faculdade de Direito. Mal acabou o curso viu nascer Abril e ingressou no jornalismo. Tornou-se barbudo e descobriu o fado, a monarquia e os touros. Por esses quatro motivos entrou com o Nuno Miguel Guedes no PPM e dedicou-se ao jornalismo como paquete de Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso n'O Independente. Escreveu três ensaios sobre literatura russa medieval, traduzidos em mandarím e tchecheno. Deu aulas na Independente e consumiu marijuana com o comandante Zapata, durante uma fotoreportagem. Tudo isto é mentira - mas bem que podia ser verdade, não tivesse ele nascido na década de oitenta e ser um jovem jornalista precário. É o que dá ser novo.
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Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de amigos, cerveja e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância e o autoritarismo. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.