Este é o meu primeiro Outono no escritório. É estranho. Últimamente tudo me parece estranho. Devo andar a viver num mundo de lógica invertida. Já falta pouco para o Natal e não há luzes na cidade, são poucas as bancas de castanhas, o telefone já não toca com o amigo que nos convida a bebermos um copo. As pessoas já não bebem copos. A esplanada do Hotel do Bairro Alto tem o meu lugar ocupado por alguém, as outras esplanadas todas também, alguém ocupou o meu lugar no mundo. Qualquer dia os meus amigos também irão ocupar o meu lugar dentro deles, tudo é passageiro, tudo se vai e a amizade não é excepção.
Quando acordo não tenho mensagens a dizerem bom dia, quando me deito não o informo a ninguém, há anos, muitos anos, que a minha vida não era assim. Leio um livro e depois o que faço com o que aprendi? Nada, já não há ninguém que me queira ouvir ao som de um café, com um trago a bossa nova. Então arrumo o livro na prateleira do pensamento. Com os anos tornei-me uma má companhia, talvez seja por isso. Se calhar falo muito, ou então falo pouco, ou então falo quando não o devia fazer. Mas agora estou a falar disto porquê?
Sinto necessidade de ter alguém com quem comunicar. Estou farto de falar para dentro, de estar sozinho, de não ter um objectivo clarividente, um projecto a 30, 50, 70 anos. Não sei quem inventou este conceito, estúpido, diga-se de passagem, de que tudo no mundo moderno tem que ser efémero e passageiro. Mataram o amor para a vida, a amizade para a vida, o estilo de roupa para a vida, o tabaco para a vida, o whisky para a vida e se não os determos vão matar a própria vida. E que fazemos? Nada.
Conformamo-nos com um ideal de vida em que nada é para a vida. Assim saímos à noite para fazermos mais amigos, talvez para durarem uma semana, um mês, no máximo um ano. Depois arranjamos uma namorada que dure uns dias, uns meses, se correr bem um ano e tal. Qualquer dia arranjamos uma família nova, porque nada pode ser eterno. Estamos no século XXI e isso não faz sentido. Já nada é para a vida.
Estarei a ficar conservador? Avesso à mudança? Não, nunca o fui e vocês sabem disso. Acontece que há tanta mudança, que a capacidade de processamento da mesma está a falhar, até que o mundo bloqueia e diz basta. Depois queremos voltar aos valores antigos. Ups! Desculpem, esqueci-me que já não há valores. Isso era no passado. Tudo é efémero.