5.11.08

Este é o meu primeiro Outono no escritório. É estranho. Últimamente tudo me parece estranho. Devo andar a viver num mundo de lógica invertida. Já falta pouco para o Natal e não há luzes na cidade, são poucas as bancas de castanhas, o telefone já não toca com o amigo que nos convida a bebermos um copo. As pessoas já não bebem copos. A esplanada do Hotel do Bairro Alto tem o meu lugar ocupado por alguém, as outras esplanadas todas também, alguém ocupou o meu lugar no mundo. Qualquer dia os meus amigos também irão ocupar o meu lugar dentro deles, tudo é passageiro, tudo se vai e  a amizade não é excepção.

 

Quando acordo não tenho mensagens a dizerem bom dia, quando me deito não o informo a ninguém, há anos, muitos anos, que a minha vida não era assim. Leio um livro e depois o que faço com o que aprendi? Nada, já não há ninguém que me queira ouvir ao som de um café, com um trago a bossa nova. Então arrumo o livro na prateleira do pensamento. Com os anos tornei-me uma má companhia, talvez seja por isso. Se calhar falo muito, ou então falo pouco, ou então falo quando não o devia fazer. Mas agora estou a falar disto porquê?

 

Sinto necessidade de ter alguém com quem comunicar. Estou farto de falar para dentro, de estar sozinho, de não ter um objectivo clarividente, um projecto a 30, 50, 70 anos. Não sei quem inventou este conceito, estúpido, diga-se de passagem, de que tudo no mundo moderno tem que ser efémero e passageiro. Mataram o amor para a vida, a amizade para a vida, o estilo de roupa para a vida, o tabaco para a vida, o whisky para a vida e se não os determos vão matar a própria vida. E que fazemos? Nada.

 

Conformamo-nos com um ideal de vida em que nada é para a vida. Assim saímos à noite para fazermos mais amigos, talvez para durarem uma semana, um mês, no máximo um ano. Depois arranjamos uma namorada que dure uns dias, uns meses, se correr bem um ano e tal. Qualquer dia arranjamos uma família nova, porque nada pode ser eterno. Estamos no século XXI e isso não faz sentido. Já nada é para a vida.

 

Estarei a ficar conservador? Avesso à mudança? Não, nunca o fui e vocês sabem disso. Acontece que há tanta mudança, que a capacidade de processamento da mesma está a falhar, até que o mundo bloqueia e diz basta. Depois queremos voltar aos valores antigos. Ups! Desculpem, esqueci-me que já não há valores. Isso era no passado. Tudo é efémero.

link do postPor João Gomes de Almeida, às 18:32  comentar

De José Pedro Salgado a 5 de Novembro de 2008 às 19:33
Que fôfo.

Mudanças de hábitos são assim. Os hábitos são a nossa vida, e quando mudamos de hábitos, parece que a nossa vida se foi.

E foi. Mas o mundo não pára de rodar por nossa causa, e vamos ganhando, queiramos ou não, novos hábitos. Quando damos por nós, temos uma nova vida.

Já dizia Churchill: "If you're going through Hell, keep going."

PS(D) - E lê-se um livro não para discutir. Lê-se um livro para saber, para aprender. Mais do que necessário para compreender o mundo, um livro é um fim em si mesmo.

De Neuza a 5 de Novembro de 2008 às 20:53
Curiosa a forma como me vi reflectida em várias expressões, em inúmeros pensamentos teus.
Assim, sem mais nem porquê, há tanto de mim no que por aqui deixaste e fazes-me pensar (uma vez mais) no que será o futuro deste presente. De onde virão os amigos, ou em que consistirá o conceito de Amigo daqui a uns tempos, onde estarão os costumes, as tradições, o "habitual" ao qual procuramos fugir durante fases de rebeldia na adolescência e que hoje nos sabem a saudade.


Ainda me lembro da primeira vez que te li, assim num tom um pouco mais sério. A reacção será sempre a mesma.
Ontem, nos tempos do Secundário numa qualquer conversa-de-desabafo sobre pequenos grandes amores, hoje numa leitura, amanhã sabe-se lá por onde.
A reacção será sempre a mesma...essa não mudará certamente :)

Beijinho

De Edna Oliveira de Sant'Ana a 5 de Novembro de 2008 às 23:33
Olá, João!

É a primeira vez que leio os seus escritos. Sobre o tema em questão – efemeridade – em março de 2004 eu fiz um poema e o denominei "Transitoriedade" ou "Um instante só". Nele eu digo que vivemos num mundo de pouca duração, onde tudo passa rápido, é passageiro, efêmero , transitivo.

De Guitinha a 6 de Novembro de 2008 às 12:51
Revi-me em alguns comentários... Vá em quase todos.
É normal mudarmos com os anos e não podemos esperar que todos os outros continuem iguais...
Se o problema é sentires-te sozinho, faz o que vulgarmente se chama: "pela vida"...
Agarra no tlm e liga a alguém, combina 1 café, 1 copo. (Em desespero de causa, manda-me 1 mail lol)
Em relação á namorada nessa parte já não ajudo, porque cada 1 "desenrasca-se" por si... lol
Mas os amigos que realmente o são, não nos colocam de parte porque falamos mto, ou pouco, ou até o que supostamente não devemos.
Amigo que é amigo aceita os nossos defeitos como, vamos lá chamar... Parte do nosso charme...

bjo

De bacalhaucomnatas a 6 de Novembro de 2008 às 15:33
Acho que conseguiu colocar em palavras o que me vai na alma.

Parece que nos dias de hoje, o amigo e o estranho são a mesma pessoa. Tão depressa estamos com ele, com no instante seguinte não o vemos à muito muito tempo.

A sensação de solidão permanente acompanha a juventude de hoje.

E acredite, mesmo com namorada à mais de 4 anos, ainda não decidimos "ajuntar", a sensação de acordarmos sós, e não ter companhia ao pequeno almoço, e por vezes todo o dia (maldito trabalho) não nos deixa.

Obrigado por me fazer reflectir um pouco sobre isto.

De Palpita a 6 de Novembro de 2008 às 15:47
Olá,

Adorei o Post. Sinto-me exactamente como descreve. Muito obrigada por perceber tão bem

Beijinho,

Palpita

De Paula a 6 de Novembro de 2008 às 15:52
«Mataram o amor para a vida, a amizade para a vida, o estilo de roupa para a vida, o tabaco para a vida, o whisky para a vida e se não os determos vão matar a própria vida. E que fazemos? Nada.»
Não podia concordar mais. Vimos tudo tornar-se descartável e a reacção mais normal é indiferença, daí talvez darmos por nós a pensar se seremos descartáveis ou descartamos simplesmente ao primeiro sinal de dificuldade...

De Il Conte a 6 de Novembro de 2008 às 16:22
Tudo é efémero ? Quem sabe...se calhar nem tudo. Há coisas que ficam, que não duram somente uma semana. A 27 de Março de 1976 morreu meu avozinho materno, eu queria-lhe muito bem, passaram mais de 32 anos, mas eu continuo com uma saudade imensa dele. Em 1986 pela primeira vez na vida eu cheguei no seu pais, gostei logo imenso, depois viajei tb por esse mundo fora, mas em Portugal voltei muitas vezes, nos outros países que visitei não me apeteceu voltar. A 16 d Agosto de 1991 conheci uma Portuguesa muito linda, nunca mais a esqueci, outras mulheres entraram na minha vida, até uma esposa, mas nunca esqueci essa mulher. Entre 1997 e 2007 consegui viver na minha terrinha, depois tive que mudar para outra cidade distante 500 quilómetros , mas não consigo esquecer a minha terrinha e quero lá voltar. Ha muita coisa que dura, pá . Acho que o João esta a precisar de ficar apaixonado, apaixonado por algo, e podia ser qualquer coisa, uma mulher muito diferente, uma paixão politica ou civil nova, o estudo de algo novo, um novo emprego. Joao , deixa essa mesa de jogo na qual estas agora, começa a apostar em outras mesas, muda a tua vida, mas que seja uma revolução , ouviste? Boa sorte. (E se mais optimista!)

De Maria Araújo a 6 de Novembro de 2008 às 17:32
Gostei de ler este post. É a primeira vez que o "leio", porque está em destaque nos blogs do Sapo.
Concordo com tudo o que disse, mas o que mais mexeu comigo foi a frase final..."Já não há valores.Isso era no passado"
Talvez por não haver hoje valores é que tudo passa a correr. As pessoas querem viver rapidamente como se o mundo acabasse amanhã, logo, vivem com a ânsia de tudo querer para ontem o que se consegue com o tempo, a partilha, a vontade de lutar.
E cada vez mais se vive para o trabalho em detrimento dos valores e da família.
Parabéns pelo blog
Um abraço

Ana Anes

Ana Anes nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1973, com o cordão umbilical bem preso no pescoço. Pode-se dizer que é uma sobrevivente (alegre) e, como tal, decidiu festejar a vida com um carácter irreverente, livre de constrangimentos e da opinião alheia, com uma faceta “bombista-literária” em que não se levando a sério - porque a vida já é demasiado pesada por si mesma...
Tem dois livros publicados, e já escreveu em vários órgãos de imprensa, como O Independente, Destak, DNA, Maxmen, Correio da Manhã e Playboy. Os seus blogues já deram muito que falar.
Ana Santiago

Primeiro queria ser médica de autópsias, depois teve a mania de ser jornalista e apaixonou-se pela rádio, acabou por dedicar-se ao serviço público e vive uma relação passional com Lisboa, como sede no poder local, onde editou a Agenda Cultural.
Licenciada em Comunicação, resignou-se ao facto de pouco mais saber fazer na vida do que comunicar, de manhã à noite, com toda a gente e, se mais ninguém houver por perto, com ela mesma. Acredita que é com o coração.
Cátia Simão

Foi em véspera de uma Sexta-Feira 13 de Setembro que sua mãe conheceu o rosto enrugado e percebeu que não era o David (sobre o qual) tanto conversara durante 9 meses. Daí para a frente foi muitos nomes a até se assentar como Cátia. Cresceu pensando que iria ser modista, mas não tinha muito jeito para fazer costuras e braguilhas. Virou-se para a arqueologia e seguiu outro caminho, a música, os filmes e a rádio. Seguiu-se dos seus amores de garota. Ainda hoje procura as agulhas do seu giradiscos portátil na bainha de um vestido rosa da moda. É muito feliz e gosta de sorrir.
Cláudia Köver

Tem os ensinamentos anglo-saxónicos cravados nas sardas e o amor às artes nas pontas dos dedos. O gosto pela manta das Relações Internacionais, adquirido pelos retalhos da herança familiar, consome-se nas almofadas do mestrado. Seguiu um coelho branco e calçou os saltos de jornalista EM que de momento lhe assentam os pés. Deixou pequenas pegadas nas páginas da “Pública”, da revista “Nós” do Jornal i, do Jornal Briefing e da televisão Arte. Incapaz de se manter fiel ao amor por um só par de sapatos, fez cursos em instituições europeias e teve aulas de representação em palco poeirento. Infelizmente, não teve dom para fazer dinheiro como viajante, mas soma este aos restantes vícios: desde a última tarde de 86 que não se inibe de sorrir e sonhar.
Inês Leão

Registada na bela freguesia de Mem Martins, Inês teve uma infância feliz, até ao dia que teve de abandonar o ballet por ter as pernas tortas (erro que nunca foi corrigido pelas botas ortopédicas ora azuis ora castanhas, que usou até tarde). Sempre gostou muito de desenhar, tendo como maiores influências os filmes clássicos da Disney, a Barbie e o seu pai. Quando teve de escolher a sua área optou por artes, por não ter matemática, não fazendo ideia que teria de gramar com geometria descritiva. É recém-chegada no design e o seu sonho é ser uma designer de sucesso, trabalhando a partir do seu iate privado na marina da Costa Nova, na Ria de Aveiro.
João Gomes de Almeida

Divide o tempo entre a editora e revista on-line Nicotina, o Perguntas Proibidas na Rádio Europa e o seu pequeno bar / livraria Les Enfants Terribles, no Saldanha Residence. Já lançou dois livros, quer casar e ter filhos.
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Nuno Miguel Guedes nasceu em Lisboa em 1964. Jornalista, esteve no inicio de O Independente, de onde saiu em 1990 para a revista Kapa, de que foi co-fundador e co-afundador. Escreve para várias publicações e é colaborador pemanente da revista Visão (cultura) Letrista sempre que o deixam, guionista de televisão, bloguista, DJ ocasional, anglófilo, fanático da Académica e de livros. Nos tempos livres pratica o dry martini.
Pedro Rainho

Nasceu no iníco da década de 60, na vila de Sintra. Filho de família aristocrata, cedo forçou-se a desiludi-la. Aos 14 anos já estava ilegalmente no MRPP, onde foi companheiro de luta académica de Durão Barroso, na Faculdade de Direito. Mal acabou o curso viu nascer Abril e ingressou no jornalismo. Tornou-se barbudo e descobriu o fado, a monarquia e os touros. Por esses quatro motivos entrou com o Nuno Miguel Guedes no PPM e dedicou-se ao jornalismo como paquete de Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso n'O Independente. Escreveu três ensaios sobre literatura russa medieval, traduzidos em mandarím e tchecheno. Deu aulas na Independente e consumiu marijuana com o comandante Zapata, durante uma fotoreportagem. Tudo isto é mentira - mas bem que podia ser verdade, não tivesse ele nascido na década de oitenta e ser um jovem jornalista precário. É o que dá ser novo.
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Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de amigos, cerveja e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância e o autoritarismo. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.