18.5.10

Ser Afrodite cansa. É viciante. Ser Psique dá trabalho. É herculiano. Uma é a droga, a outra a recuperação.

A Afrodite é bela. A Psique também. A Afrodite joga com isso, a Psique vive apesar disso. Uma vive num padrão, a outra quebra a ilusão.

 

Se Afrodite e Psique fossem personagens de uma série viveriam ambas em Nova Iorque - vamos supor que a série é americana e produzida pela HBO, transportando a mitologia para a sua vertente urbana - , e seriam rivais, arqui-rivais. Afrodite sentir-se-ia ameaçada pela beleza e serenidade de Psique, e esta, por sua vez, na sua naturalidade enquanto comia uma salada take-away num banquinho do Central Park, reconheceria a beleza de Afrodite e o seu poder, mas não se sentiria ameçada por estes. Afrodite é ciumenta, Psique é segura.

 

Afrodite seria a personagem que se "enfronha" nos relacionamentos confundindo-se com eles, obcecando na procura da satisfação das suas necessidades mais imediatas. Sentar-se-ia todas as noites num bar de 'singles' e conquistaria todos os homens com o seu olhar e o seu poder de sedução, e sairia de lá acompanhada, ou com uma série de números de telemóvel, e mais uma dose para a veia da paixão. A Psique também ia beber um Cosmopolitan, mas baixaria as persianas sobre o olhar de sedução e permaneceria sentada, imóvel e, quem sabe, fumando (numa série da HBO isso pode ser possível), em conversa com o barman que lhe pagou o copo para comemorar o nascimento do filho, e talvez até levasse um número de telemóvel de um outro homem que a sua alma reconheceu. Psique não se "enfronha" nos relacionamenos, vive-os intensamente mas com a distância necessária para observar de que forma a fazem evoluir e podem ou não satisfazer as necessidades da sua alma, a sua busca interior para ser inteira, com ou sem homem. Afrodite tem medo da solidão, vive em festas. Psique precisa de estar sozinha às vezes, e não tem medo de ficar em casa a ver televisão ou a ler.

 

Afrodite e Psique teriam, claro, um magnífico 'outfit'. Afrodite vestiria roupa para lhe afagar o ego. Psique trajaria para dar cor e forma ao seu sorriso, às suas aspiraões, e às suas lágrimas também. Afrodite vestiria cor-de-rosa mesmo quando está triste. Psique assumiria o luto, quando assim tivesse de ser.

 

Ambas caminhariam nas ruas de Nova Iorque com ganas de ser felizes, mas enquanto Afrodite se recusaria a desmanchar a imagem idealizada reflectida nas vitrines das lojas da 5.ª Avenida, Psique estaria preparada para partir os vidros todos e com eles as ilusões e as auto-imagens de perfeição fabricadas pela mente.

 

Afrodite não olha para dentro nem quer descer às profundezas da sua cidade, não arriscaria andar de Metro, andaria sempre na superfície a olhar para cima. Psique atreve-se a descer até aos esgotos, iria cheirar o suor dos outros na carruagem do Metro e evitaria andar de táxi, mesmo que dessa forma pudesse chegar mais depressa e mais composta ao seu destino.

 

No final da série, Afrodite e Psique tornavam-se amigas. Afrodite aprendia a respeitar e a não ter medo de Psique, e esta continuaria serena no seu caminho, rindo dos disparates de Afrodite e conscientemente alinhando nalgumas coqueterias como que para proteger Afrodite de si própria. Discutiriam, mas não poderiam já viver uma sem a outra. Mas, estava escrito, os autores da série tinham decidido que o guião desta história de mulheres seria mais Psique e menos Afrodite.

 

link do postPor Ana Santiago, às 21:27  comentar

De aumento seno a 19 de Maio de 2010 às 16:14
seu blog é muito bom! Eu não leio Português bem, mas eu amo o que você escreve!

Ana Anes

Ana Anes nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1973, com o cordão umbilical bem preso no pescoço. Pode-se dizer que é uma sobrevivente (alegre) e, como tal, decidiu festejar a vida com um carácter irreverente, livre de constrangimentos e da opinião alheia, com uma faceta “bombista-literária” em que não se levando a sério - porque a vida já é demasiado pesada por si mesma...
Tem dois livros publicados, e já escreveu em vários órgãos de imprensa, como O Independente, Destak, DNA, Maxmen, Correio da Manhã e Playboy. Os seus blogues já deram muito que falar.
Ana Santiago

Primeiro queria ser médica de autópsias, depois teve a mania de ser jornalista e apaixonou-se pela rádio, acabou por dedicar-se ao serviço público e vive uma relação passional com Lisboa, como sede no poder local, onde editou a Agenda Cultural.
Licenciada em Comunicação, resignou-se ao facto de pouco mais saber fazer na vida do que comunicar, de manhã à noite, com toda a gente e, se mais ninguém houver por perto, com ela mesma. Acredita que é com o coração.
Cátia Simão

Foi em véspera de uma Sexta-Feira 13 de Setembro que sua mãe conheceu o rosto enrugado e percebeu que não era o David (sobre o qual) tanto conversara durante 9 meses. Daí para a frente foi muitos nomes a até se assentar como Cátia. Cresceu pensando que iria ser modista, mas não tinha muito jeito para fazer costuras e braguilhas. Virou-se para a arqueologia e seguiu outro caminho, a música, os filmes e a rádio. Seguiu-se dos seus amores de garota. Ainda hoje procura as agulhas do seu giradiscos portátil na bainha de um vestido rosa da moda. É muito feliz e gosta de sorrir.
Cláudia Köver

Tem os ensinamentos anglo-saxónicos cravados nas sardas e o amor às artes nas pontas dos dedos. O gosto pela manta das Relações Internacionais, adquirido pelos retalhos da herança familiar, consome-se nas almofadas do mestrado. Seguiu um coelho branco e calçou os saltos de jornalista EM que de momento lhe assentam os pés. Deixou pequenas pegadas nas páginas da “Pública”, da revista “Nós” do Jornal i, do Jornal Briefing e da televisão Arte. Incapaz de se manter fiel ao amor por um só par de sapatos, fez cursos em instituições europeias e teve aulas de representação em palco poeirento. Infelizmente, não teve dom para fazer dinheiro como viajante, mas soma este aos restantes vícios: desde a última tarde de 86 que não se inibe de sorrir e sonhar.
Inês Leão

Registada na bela freguesia de Mem Martins, Inês teve uma infância feliz, até ao dia que teve de abandonar o ballet por ter as pernas tortas (erro que nunca foi corrigido pelas botas ortopédicas ora azuis ora castanhas, que usou até tarde). Sempre gostou muito de desenhar, tendo como maiores influências os filmes clássicos da Disney, a Barbie e o seu pai. Quando teve de escolher a sua área optou por artes, por não ter matemática, não fazendo ideia que teria de gramar com geometria descritiva. É recém-chegada no design e o seu sonho é ser uma designer de sucesso, trabalhando a partir do seu iate privado na marina da Costa Nova, na Ria de Aveiro.
João Gomes de Almeida

Divide o tempo entre a editora e revista on-line Nicotina, o Perguntas Proibidas na Rádio Europa e o seu pequeno bar / livraria Les Enfants Terribles, no Saldanha Residence. Já lançou dois livros, quer casar e ter filhos.
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Nuno Miguel Guedes

Nuno Miguel Guedes nasceu em Lisboa em 1964. Jornalista, esteve no inicio de O Independente, de onde saiu em 1990 para a revista Kapa, de que foi co-fundador e co-afundador. Escreve para várias publicações e é colaborador pemanente da revista Visão (cultura) Letrista sempre que o deixam, guionista de televisão, bloguista, DJ ocasional, anglófilo, fanático da Académica e de livros. Nos tempos livres pratica o dry martini.
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Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de amigos, cerveja e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância e o autoritarismo. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.