14.5.10

Na última madrugada, não consegui desviar o olhar das imagens televisivas da procissão das velas em Fátima, culto com o qual, enquanto católica de formação, nunca lidei muito bem.

Veio-me mais uma vez à reflexão racional, que sempre imprimi no meu percurso de fé, a certeza (e se esta palavra me custa caro quando falo em religião) que é o culto mariano que afasta muitos católicos do protestantismo. Os católicos precisam de Maria, da mãe. Os portugueses, sobretudo, têm com Fátima uma relação que quase, atrevo-me a dizer, transformou a devoção a Nossa Senhora numa religião à parte dentro da Igreja Católica.

Hoje, e nada é por acaso, li o Tiago Oliveira Cavaco e não pude deixar de compreender as suas palavras e o seu desapontamento. Bento XVI, representante máximo de uma igreja que durante alguns anos menosprezou as visões dos pastorinhos, sucessor de João Paulo II - que, por seu turno, elevou, por devoção pessoal, o culto a Maria Santíssima e a sua consagração mediática em Fátima pelo povo português a um patamar teológico nunca antes alcançado -, dirige-se ao mundo, também ele, comunicando a sua igreja com base num conceito que atribui a Maria o papel de fiel depositária da esperança e da fé. Como se Maria fora um trunfo comunicacional e a Igreja Católica, compreendendo o seu target, soubesse exactamente o que comunicar. E é compreensível. A igreja tem de saber comunicar para agarrar os fiéis, venham eles de onde vierem e façam eles o culto como fizerem. Pois não há religião cujos fiéis tenham vivências e entendimentos da fé, da doutrina e dos dogmas, mais díspares que a Católica. Ontem, por certo, haveria entre os milhares de peregrinos em Fátima quem tenha votado sim à despenalização do aborto, quem não se confesse há anos, quem se tenha divorciado, quem use preservativo, quem não concorde com o celibato imposto aos padres, quem nunca vá à missa dominical mas se disponha a sangrar dos joelhos no chão do santuário... A igreja precisa de facto de comunicar.

Que comunique Maria, Fátima - pois ninguém, por mais laico, crítico ou agnóstico que seja pode deixar de acreditar, pelo menos, na fé das pessoas que todos os anos caminham para Fátima a pedir socorro -, mas que comunique também aos crentes o seu papel estruturante na resolução dos problemas de um mundo em crise económica e social. Que redefina o discurso face a realidades como a pedofilia, a Sida, as desigualdades sociais, a intolerância. Que acolha as novas formas de vida em família, as diferentes opções sexuais. Que revele segredos, que saia de uma vez por todas do latim sub-consciente com que se torna tão hermética e espécie de sociedade secreta aos olhos de tantos que a procuram entender para se salvar. Que aceite as críticas e argumente sem evasivas nem autismo. Que perceba de uma vez por todas que há quem busque respostas, mais conhecimento. Afinal, há quem busque a salvação. Os portugueses fiam-se na Virgem, mas precisam de mais caminhos por e para onde correr, mesmo quando correm para Ela.

link do postPor Ana Santiago, às 17:05  comentar

Ana Anes

Ana Anes nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1973, com o cordão umbilical bem preso no pescoço. Pode-se dizer que é uma sobrevivente (alegre) e, como tal, decidiu festejar a vida com um carácter irreverente, livre de constrangimentos e da opinião alheia, com uma faceta “bombista-literária” em que não se levando a sério - porque a vida já é demasiado pesada por si mesma...
Tem dois livros publicados, e já escreveu em vários órgãos de imprensa, como O Independente, Destak, DNA, Maxmen, Correio da Manhã e Playboy. Os seus blogues já deram muito que falar.
Ana Santiago

Primeiro queria ser médica de autópsias, depois teve a mania de ser jornalista e apaixonou-se pela rádio, acabou por dedicar-se ao serviço público e vive uma relação passional com Lisboa, como sede no poder local, onde editou a Agenda Cultural.
Licenciada em Comunicação, resignou-se ao facto de pouco mais saber fazer na vida do que comunicar, de manhã à noite, com toda a gente e, se mais ninguém houver por perto, com ela mesma. Acredita que é com o coração.
Cátia Simão

Foi em véspera de uma Sexta-Feira 13 de Setembro que sua mãe conheceu o rosto enrugado e percebeu que não era o David (sobre o qual) tanto conversara durante 9 meses. Daí para a frente foi muitos nomes a até se assentar como Cátia. Cresceu pensando que iria ser modista, mas não tinha muito jeito para fazer costuras e braguilhas. Virou-se para a arqueologia e seguiu outro caminho, a música, os filmes e a rádio. Seguiu-se dos seus amores de garota. Ainda hoje procura as agulhas do seu giradiscos portátil na bainha de um vestido rosa da moda. É muito feliz e gosta de sorrir.
Cláudia Köver

Tem os ensinamentos anglo-saxónicos cravados nas sardas e o amor às artes nas pontas dos dedos. O gosto pela manta das Relações Internacionais, adquirido pelos retalhos da herança familiar, consome-se nas almofadas do mestrado. Seguiu um coelho branco e calçou os saltos de jornalista EM que de momento lhe assentam os pés. Deixou pequenas pegadas nas páginas da “Pública”, da revista “Nós” do Jornal i, do Jornal Briefing e da televisão Arte. Incapaz de se manter fiel ao amor por um só par de sapatos, fez cursos em instituições europeias e teve aulas de representação em palco poeirento. Infelizmente, não teve dom para fazer dinheiro como viajante, mas soma este aos restantes vícios: desde a última tarde de 86 que não se inibe de sorrir e sonhar.
Inês Leão

Registada na bela freguesia de Mem Martins, Inês teve uma infância feliz, até ao dia que teve de abandonar o ballet por ter as pernas tortas (erro que nunca foi corrigido pelas botas ortopédicas ora azuis ora castanhas, que usou até tarde). Sempre gostou muito de desenhar, tendo como maiores influências os filmes clássicos da Disney, a Barbie e o seu pai. Quando teve de escolher a sua área optou por artes, por não ter matemática, não fazendo ideia que teria de gramar com geometria descritiva. É recém-chegada no design e o seu sonho é ser uma designer de sucesso, trabalhando a partir do seu iate privado na marina da Costa Nova, na Ria de Aveiro.
João Gomes de Almeida

Divide o tempo entre a editora e revista on-line Nicotina, o Perguntas Proibidas na Rádio Europa e o seu pequeno bar / livraria Les Enfants Terribles, no Saldanha Residence. Já lançou dois livros, quer casar e ter filhos.
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Nuno Miguel Guedes

Nuno Miguel Guedes nasceu em Lisboa em 1964. Jornalista, esteve no inicio de O Independente, de onde saiu em 1990 para a revista Kapa, de que foi co-fundador e co-afundador. Escreve para várias publicações e é colaborador pemanente da revista Visão (cultura) Letrista sempre que o deixam, guionista de televisão, bloguista, DJ ocasional, anglófilo, fanático da Académica e de livros. Nos tempos livres pratica o dry martini.
Pedro Rainho

Nasceu no iníco da década de 60, na vila de Sintra. Filho de família aristocrata, cedo forçou-se a desiludi-la. Aos 14 anos já estava ilegalmente no MRPP, onde foi companheiro de luta académica de Durão Barroso, na Faculdade de Direito. Mal acabou o curso viu nascer Abril e ingressou no jornalismo. Tornou-se barbudo e descobriu o fado, a monarquia e os touros. Por esses quatro motivos entrou com o Nuno Miguel Guedes no PPM e dedicou-se ao jornalismo como paquete de Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso n'O Independente. Escreveu três ensaios sobre literatura russa medieval, traduzidos em mandarím e tchecheno. Deu aulas na Independente e consumiu marijuana com o comandante Zapata, durante uma fotoreportagem. Tudo isto é mentira - mas bem que podia ser verdade, não tivesse ele nascido na década de oitenta e ser um jovem jornalista precário. É o que dá ser novo.
Tomás Vasques

Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de amigos, cerveja e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância e o autoritarismo. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.