9.5.10

... Não existe.

A propósito do problema das mulheres bonitas trazido à baila pelo João, diverte-me pensar que as mulheres não têm problema nenhum com os homens bonitos. Elas não os querem. Eles não as perturbam. 

Não procuramos os homens bonitos, pelo menos não daquele bonito simétrico, perfeito, carinha muito lavada. A diferença entre um Brad Pitt e um Benicio del Toro, ou um Javier Bardem, é a mesma que existe entre um apartamento perfeito num condomínio fechado, numa zona sem comércio nem serviços, e um apartamento com umas rachas, o pé direito alto, boa localização e bem servido de equipamentos culturais e comerciais. Não me ocorreu outra imagem que não a do sector imobiliário. Mas um homem é também um espaço que habitamos, com todos os encargos de manutenção da propriedade que isso nos traz.

As mulheres não suspiram aos ouvidos das amigas: "aquele homem é tão bonito". As mulheres ficam com as bochechas coradas à conta de um homem "giro", "interessante", "bom". Desenvolvendo o vocábulo feminino: um homem a quem se atribuem coisas como "charme", adjectivos como "sexy" ou "sensual", lógicas de investimento como "aquele homem dá trabalho, mas deve valer a pena", bónus como a "inteligência" e o "sentido de humor".

Os homens, insisto em dizer, são como as casas. Mas há uma grande diferença. Já há muitos anos que defendo o arrendamento, usar sem comprar. Ter sem me comprometer. Ora, com os homens não pode ser assim. Quando se quer, à séria, já se comprou. Essa é a diferença entre a propriedade imobiliária e o espaço onde queremos que o nosso coração seja inquilino. E quando decidimos entrar em casa nova com o coração nas mãos estamos irremediavelmnete perdidas. Se decidirmos habitar um homem, Deus nos acompanhe, ninguém nos faz um contrato de arrendamento. Temos de comprar. E como não temos problemas com homens bonitos, porque não os queremos, temos de arranjar problemas com "os outros", aqueles a que convencionámos, de um modo geral, chamar: "interessantes". A beleza está no que nos motiva. No que nos faz subir montanhas com sandálias de salto alto, afastar a vegetação selvagem com o verniz das unhas ainda a secar, sobreviver no mato e regressar a casa, ao nosso homem, com as meias rasgadas, a maquilhagem borrada, mas a certeza que fomos até ao fim e descobrimos umas boas coisas sobre a nossa casa e a forma como a queremos viver, decorar, limpar, organizar, amar.

Depois, vem um dia, e nós sabemos assim que o sol entra pela janela que é esse o dia, em que nada mais será igual. É quando descobrimos se a nossa casa é o nosso lar ou apenas uma propriedade que teremos de pôr à venda. Os homens são a nossa casa, mas nem todos conseguem ser o nosso lar. E é a ele que queremos regressar sempre.

 

 

link do postPor Ana Santiago, às 18:02  comentar

De alfredo pinto coelho a 11 de Maio de 2010 às 15:27
garnde post .
bonito!.. desculpe, "interessante", "bom"...
acrescentaria: com pinta!
adorei ler e "giro", giro, é a analogia com " o sector imobiliário":
" mas um homem é também um espaço que habitamos, com todos os encargos... " - espectacular !
oh Ana, ao ler o que escreveu dá logo, logo, vontade de a conhecer...
" penso eu de que" as minhas palavras serão, para si , um elogio - porque disso, efectivamente, se trata.
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garnde post . <BR>bonito!.. desculpe, "interessante", "bom"... <BR>acrescentaria: com pinta! <BR>adorei ler e "giro", giro, é a analogia com " o sector imobiliário": <BR>" mas um homem é também um espaço que habitamos, com todos os encargos... " - espectacular ! <BR>oh Ana, ao ler o que escreveu dá logo, logo, vontade de a conhecer... <BR>" penso eu de que" as minhas palavras serão, para si , um elogio - porque disso, efectivamente, se trata. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>alfredo</A> pinto coelho <BR>

De humberto a 13 de Maio de 2010 às 01:55
desculpa mas também os homens não suspiram ao ouvido dos amigos, " olha que mulher bonita".
normalmente, é mesmo... tipo... " é pá já viste aquela gaja b..... que ali está??"
para mal dos nossos pecados, os amigos tem tendência a responder..." é pá... olha que está acompanhada"
é quase como a tua analogia imobiliária, as casas fixes já estão ocupadas...
resta continuar à procura, ou esperar que fique vaga....

De jonasnuts a 18 de Maio de 2010 às 12:56
Este post está em destaque na Homepage do SAPO, tab "Mulher".

De João Gomes de Almeida a 18 de Maio de 2010 às 16:28
Muito obrigado Maria João!

Um abraço

De Ana Santiago a 18 de Maio de 2010 às 17:31
:-) Obrigada

De miss G a 18 de Maio de 2010 às 16:38
A beleza é relativa,mas eu,pessoalmente procuro o que PARA MIM é um homem bonito:que tenha um rosto harmonioso,nada tipo "cabeça de ingureta" ou "beiço de bulledogue",uma cara laroca,que dê gosto de olhar e isso é relativo.... uma boa musculatura...gosto deles á Van Damme,desportistas,com uns bons bícepes bem malhados,nada de gordos e mal amanhados como a maior parte,não precisa de ser muuuto culto,quando se poem a falar de música clássica,de filosofia e de economia...dá-me cá uma soneira que nem vos conto... basta que vá falando o português corrente,não precisa de muito mais...

De claudia a 18 de Maio de 2010 às 17:27
Este tinha de comentar. Um post muito interessante. proponho como sugestão uma futura dissertação sobre o valor do mercado imobiliário. Obrigada.

Ana Anes

Ana Anes nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1973, com o cordão umbilical bem preso no pescoço. Pode-se dizer que é uma sobrevivente (alegre) e, como tal, decidiu festejar a vida com um carácter irreverente, livre de constrangimentos e da opinião alheia, com uma faceta “bombista-literária” em que não se levando a sério - porque a vida já é demasiado pesada por si mesma...
Tem dois livros publicados, e já escreveu em vários órgãos de imprensa, como O Independente, Destak, DNA, Maxmen, Correio da Manhã e Playboy. Os seus blogues já deram muito que falar.
Ana Santiago

Primeiro queria ser médica de autópsias, depois teve a mania de ser jornalista e apaixonou-se pela rádio, acabou por dedicar-se ao serviço público e vive uma relação passional com Lisboa, como sede no poder local, onde editou a Agenda Cultural.
Licenciada em Comunicação, resignou-se ao facto de pouco mais saber fazer na vida do que comunicar, de manhã à noite, com toda a gente e, se mais ninguém houver por perto, com ela mesma. Acredita que é com o coração.
Cátia Simão

Foi em véspera de uma Sexta-Feira 13 de Setembro que sua mãe conheceu o rosto enrugado e percebeu que não era o David (sobre o qual) tanto conversara durante 9 meses. Daí para a frente foi muitos nomes a até se assentar como Cátia. Cresceu pensando que iria ser modista, mas não tinha muito jeito para fazer costuras e braguilhas. Virou-se para a arqueologia e seguiu outro caminho, a música, os filmes e a rádio. Seguiu-se dos seus amores de garota. Ainda hoje procura as agulhas do seu giradiscos portátil na bainha de um vestido rosa da moda. É muito feliz e gosta de sorrir.
Cláudia Köver

Tem os ensinamentos anglo-saxónicos cravados nas sardas e o amor às artes nas pontas dos dedos. O gosto pela manta das Relações Internacionais, adquirido pelos retalhos da herança familiar, consome-se nas almofadas do mestrado. Seguiu um coelho branco e calçou os saltos de jornalista EM que de momento lhe assentam os pés. Deixou pequenas pegadas nas páginas da “Pública”, da revista “Nós” do Jornal i, do Jornal Briefing e da televisão Arte. Incapaz de se manter fiel ao amor por um só par de sapatos, fez cursos em instituições europeias e teve aulas de representação em palco poeirento. Infelizmente, não teve dom para fazer dinheiro como viajante, mas soma este aos restantes vícios: desde a última tarde de 86 que não se inibe de sorrir e sonhar.
Inês Leão

Registada na bela freguesia de Mem Martins, Inês teve uma infância feliz, até ao dia que teve de abandonar o ballet por ter as pernas tortas (erro que nunca foi corrigido pelas botas ortopédicas ora azuis ora castanhas, que usou até tarde). Sempre gostou muito de desenhar, tendo como maiores influências os filmes clássicos da Disney, a Barbie e o seu pai. Quando teve de escolher a sua área optou por artes, por não ter matemática, não fazendo ideia que teria de gramar com geometria descritiva. É recém-chegada no design e o seu sonho é ser uma designer de sucesso, trabalhando a partir do seu iate privado na marina da Costa Nova, na Ria de Aveiro.
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Divide o tempo entre a editora e revista on-line Nicotina, o Perguntas Proibidas na Rádio Europa e o seu pequeno bar / livraria Les Enfants Terribles, no Saldanha Residence. Já lançou dois livros, quer casar e ter filhos.
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Nuno Miguel Guedes nasceu em Lisboa em 1964. Jornalista, esteve no inicio de O Independente, de onde saiu em 1990 para a revista Kapa, de que foi co-fundador e co-afundador. Escreve para várias publicações e é colaborador pemanente da revista Visão (cultura) Letrista sempre que o deixam, guionista de televisão, bloguista, DJ ocasional, anglófilo, fanático da Académica e de livros. Nos tempos livres pratica o dry martini.
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Nasceu no iníco da década de 60, na vila de Sintra. Filho de família aristocrata, cedo forçou-se a desiludi-la. Aos 14 anos já estava ilegalmente no MRPP, onde foi companheiro de luta académica de Durão Barroso, na Faculdade de Direito. Mal acabou o curso viu nascer Abril e ingressou no jornalismo. Tornou-se barbudo e descobriu o fado, a monarquia e os touros. Por esses quatro motivos entrou com o Nuno Miguel Guedes no PPM e dedicou-se ao jornalismo como paquete de Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso n'O Independente. Escreveu três ensaios sobre literatura russa medieval, traduzidos em mandarím e tchecheno. Deu aulas na Independente e consumiu marijuana com o comandante Zapata, durante uma fotoreportagem. Tudo isto é mentira - mas bem que podia ser verdade, não tivesse ele nascido na década de oitenta e ser um jovem jornalista precário. É o que dá ser novo.
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Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de amigos, cerveja e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância e o autoritarismo. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.