19.4.10

 

 

 

E se retrocedêssemos no tempo e nos costumes? Lá se iam os aviões. Quem sabe uma chuva rádio activa dava cabo dos telemóveis e, quando o nosso querido amado fosse de férias para a costa marroquina, com sorte conseguíamos-lhe fazer chegar uma cartinha duas semanas depois da despedida - 140 caracteres escrevinhados num papelinho enfiado no bico de um pombo de correio. O amor sobrevivia a estas cinzas ou cairia na promiscuidade de quem pensa perder o amante quando este ainda nem passou com a carroça de Badajoz?

 

Diferente era a paixão antes do skype e do carro, quando a Princesa Clotilde ganhava teias de arranha em Alcabideche, enquanto o jovem pretendente adormecia em Almada. As noites com a doméstica e o jardineiro são hábito que chegou aos tempos modernos, mas voltavam os casamentos por conveniência (geográfica, claro) ou o apressar dos votos para poder partilhar cama e deixar de sentir as pernas dorridas apenas por ocasião das viagens de cavalo, chegando ao destino sem forças para qualquer actividade física mais evasiva do que respirar.

  

Imaginem já não poder teclar ao amado "desculpa não ter respondido logo, mas estava a lavar os dentes", ou qui ça "estava no penico" (Para não falar na ampla adesão às clínicas de reabilitação "pós-facebook" - que ficaria na história como um mal exprimental semelhante à lobotomia).Para mim, pessoalmente, a única vantagem seria poder planear cafés com a merecida antecedência. Afinal, ir beber um copo ao saldanha à terça, tem de, pelo menos, ser planeado com três semanas de avanço - fazer chegar a carta, esperar pela confirmação que já chega depois da data do encontro, voltar a responder e pedir desculpas à Maria de Odivelas que se deslocou ao Saldanha em vão e permaneceu à nossa espera sem possibilidade de nos mandar "à merda" até à carta seguinte.

 

Ora, entre o vai e não vai, cada um casava pelo bairro e dificilmente conheceria um americano ou australiano chegado de canoa. Se o namorado fosse de férias iríamos, por certo, dá-lo como morto (porque, como todo o mundo sabe, o homem "esquece-se sempre de dar notícias"). Semelhante ao que sucedeu na dita "morte" do nosso Dom Sebastião - a.k.a. um acesso de histeria da namorada que se propagou pela comunidade. Por sinal casou com uma africana de curvas largas mas - como não havia Facebook - nunca a sua mulher abandonada por Lisboa pode chorar as fotos do recém-casados na costa do marfim. Oremos, para que desvaneçam as cinzas!

 

Ora que iam os maridos todos passar os dias à praia sem ouvir falar "do vestido novo, da crise da amiga e dos nossos medos abstractos mais profundos". Enviávamos cuidadosamente os pensamentos por carta - que eles não abririam até ao final do verão - e o efeito seria o mesmo dos tempos correntes, mas poupando o ouvido virgem dos jovens cavaleiros. Oremos para que desvaneçam as cinzas!

 

Afinal, a pior coisa que Deus deu aos homens foi um telemóvel e uma "página de controlo para a namorada". Aposto que, se o vulcão não der mais de si, não tarda estarão a andar de GPS via FourSquare. Mas, o "regresso ao futuro" fica para um próxima.

 

 

link do postPor Cláudia Köver, às 21:20  comentar

Ana Anes

Ana Anes nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1973, com o cordão umbilical bem preso no pescoço. Pode-se dizer que é uma sobrevivente (alegre) e, como tal, decidiu festejar a vida com um carácter irreverente, livre de constrangimentos e da opinião alheia, com uma faceta “bombista-literária” em que não se levando a sério - porque a vida já é demasiado pesada por si mesma...
Tem dois livros publicados, e já escreveu em vários órgãos de imprensa, como O Independente, Destak, DNA, Maxmen, Correio da Manhã e Playboy. Os seus blogues já deram muito que falar.
Ana Santiago

Primeiro queria ser médica de autópsias, depois teve a mania de ser jornalista e apaixonou-se pela rádio, acabou por dedicar-se ao serviço público e vive uma relação passional com Lisboa, como sede no poder local, onde editou a Agenda Cultural.
Licenciada em Comunicação, resignou-se ao facto de pouco mais saber fazer na vida do que comunicar, de manhã à noite, com toda a gente e, se mais ninguém houver por perto, com ela mesma. Acredita que é com o coração.
Cátia Simão

Foi em véspera de uma Sexta-Feira 13 de Setembro que sua mãe conheceu o rosto enrugado e percebeu que não era o David (sobre o qual) tanto conversara durante 9 meses. Daí para a frente foi muitos nomes a até se assentar como Cátia. Cresceu pensando que iria ser modista, mas não tinha muito jeito para fazer costuras e braguilhas. Virou-se para a arqueologia e seguiu outro caminho, a música, os filmes e a rádio. Seguiu-se dos seus amores de garota. Ainda hoje procura as agulhas do seu giradiscos portátil na bainha de um vestido rosa da moda. É muito feliz e gosta de sorrir.
Cláudia Köver

Tem os ensinamentos anglo-saxónicos cravados nas sardas e o amor às artes nas pontas dos dedos. O gosto pela manta das Relações Internacionais, adquirido pelos retalhos da herança familiar, consome-se nas almofadas do mestrado. Seguiu um coelho branco e calçou os saltos de jornalista EM que de momento lhe assentam os pés. Deixou pequenas pegadas nas páginas da “Pública”, da revista “Nós” do Jornal i, do Jornal Briefing e da televisão Arte. Incapaz de se manter fiel ao amor por um só par de sapatos, fez cursos em instituições europeias e teve aulas de representação em palco poeirento. Infelizmente, não teve dom para fazer dinheiro como viajante, mas soma este aos restantes vícios: desde a última tarde de 86 que não se inibe de sorrir e sonhar.
Inês Leão

Registada na bela freguesia de Mem Martins, Inês teve uma infância feliz, até ao dia que teve de abandonar o ballet por ter as pernas tortas (erro que nunca foi corrigido pelas botas ortopédicas ora azuis ora castanhas, que usou até tarde). Sempre gostou muito de desenhar, tendo como maiores influências os filmes clássicos da Disney, a Barbie e o seu pai. Quando teve de escolher a sua área optou por artes, por não ter matemática, não fazendo ideia que teria de gramar com geometria descritiva. É recém-chegada no design e o seu sonho é ser uma designer de sucesso, trabalhando a partir do seu iate privado na marina da Costa Nova, na Ria de Aveiro.
João Gomes de Almeida

Divide o tempo entre a editora e revista on-line Nicotina, o Perguntas Proibidas na Rádio Europa e o seu pequeno bar / livraria Les Enfants Terribles, no Saldanha Residence. Já lançou dois livros, quer casar e ter filhos.
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Nuno Miguel Guedes nasceu em Lisboa em 1964. Jornalista, esteve no inicio de O Independente, de onde saiu em 1990 para a revista Kapa, de que foi co-fundador e co-afundador. Escreve para várias publicações e é colaborador pemanente da revista Visão (cultura) Letrista sempre que o deixam, guionista de televisão, bloguista, DJ ocasional, anglófilo, fanático da Académica e de livros. Nos tempos livres pratica o dry martini.
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Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de amigos, cerveja e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância e o autoritarismo. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.