10.1.09

  

Dizem os entendidos, as pessoas em comum e, como se diz na televisão, os transeuntes, que está frio. Se eles dizem eu acredito, talvez seja até o dia mais frio dos últimos dez anos, já ouvi alguém dizer isto, acho que na rádio, quando vinha para cá. Mas onde estou?

 

Estou na praia, sentado em frente ao mar, onde a areia desabitada se confunde com os corações desabitados, também eles, sim também eles, desabitados. Olho em redor e tudo me parece desabitado, não falo apenas em matéria de corações. O mundo está desabitado, pelo menos o meu mundo. Há um mês, o que me parece um recorde, uma meta, um feito, que não sentia o mundo desabitado, triste, confuso e inútil. Há um mês, ou quase um mês, que o mundo era diferente na minha existência e talvez até a minha existência fosse diferente no mundo. E agora? Agora estou em frente ao mar, numa esplanada, não interessa a esplanada, a ouvir conversas roubadas ao casal do lado, conversas absolutamente fáceis e por isso absolutamente fúteis - mas como é bom ter estas conversas e por vezes até roubá-las aos vizinhos do lado.

 

Quando estamos sozinhos sentimos falta dos lugares comuns, do vazio dos tempos, das esplanadas e das conversas próprias das esplanadas, em que os alter-egos se exibem e fingem ao mundo a felicidade. Também eu fingi tantas vezes ao mundo a felicidade e de tantas formas a fingi. Nem imaginam, nem conseguem imaginar, como todos nós, tantas vezes, fingimos ao mundo tanta coisa. Só não consigo fingir uma coisa e hoje disse isso a Alguém, disse-o com os olhos molhados de quem chora como quem ama.

 

Lembrei-me das lágrimas e olhei o mar, toda a gente quando chora lembra-se do mar e das ondas e em vez de ficar tranquilo volta a chorar, porque o mar tem ondas, ondas que rebentam com a mesma força avassaladora das palavras, dos sentimentos e dos sentimentos misturados com palavras.

 

Disse-te que só não consigo fingir ao mundo uma coisa. Disse também que não era má pessoa e não fingi quando o disse. Disse e chorei, voltei a chorar e ouvi-te e chorei, voltei a chorar. Chorei como quem pede perdão, que é uma forma diferente de chorar. Limpei as lágrimas e parti, parti com a esperança de voltar, que é uma forma diferente de partir, de sentir, enfim, de amar. Parti e morri, porque quando se parte morre-se sempre um bocadinho. Parti mas quero voltar, enfim, viver mais um bocadinho, muitos bocadinhos de um sempre, o nosso sempre.

 

Agora percebo porque dizem que está frio, está frio porque o sol se foi. Agora sim acredito que este é o dia mais frio dos últimos dez anos. O meu sol também partiu, pior, pediu que eu partisse.

 

O que resta deste sol está espelhado nas ondas, no mar. Aqui estão espelhadas as palavras que ficaram por dizer, os beijos que ficaram por dar, e o resto, tudo o resto que ficou por viver. Mais do que a dor, este mar há-de espelhar para sempre o nosso amor.

 

E porque é difícil encontrar no mundo, nas praias, nas esplanadas e no mar, até no mar, o amor, por isso é que não quero partir. Agora que o encontrei quero-o loucamente como quem chora, como quem ama e como quem vence o frio pela força da paixão, do amor e das palavras, do amor misturado com as palavras que ficaram por dizer, espelhadas neste mar. Por isso não quero partir.

link do postPor João Gomes de Almeida, às 18:29  comentar

De Ventania a 15 de Janeiro de 2009 às 21:05
Provavelmente do melhor que já li nestes tempos da blogosfera, de sempre. Um abraço sincero, dum coração que sofre por não estar desabitado para outro.

Ana Anes

Ana Anes nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1973, com o cordão umbilical bem preso no pescoço. Pode-se dizer que é uma sobrevivente (alegre) e, como tal, decidiu festejar a vida com um carácter irreverente, livre de constrangimentos e da opinião alheia, com uma faceta “bombista-literária” em que não se levando a sério - porque a vida já é demasiado pesada por si mesma...
Tem dois livros publicados, e já escreveu em vários órgãos de imprensa, como O Independente, Destak, DNA, Maxmen, Correio da Manhã e Playboy. Os seus blogues já deram muito que falar.
Ana Santiago

Primeiro queria ser médica de autópsias, depois teve a mania de ser jornalista e apaixonou-se pela rádio, acabou por dedicar-se ao serviço público e vive uma relação passional com Lisboa, como sede no poder local, onde editou a Agenda Cultural.
Licenciada em Comunicação, resignou-se ao facto de pouco mais saber fazer na vida do que comunicar, de manhã à noite, com toda a gente e, se mais ninguém houver por perto, com ela mesma. Acredita que é com o coração.
Cátia Simão

Foi em véspera de uma Sexta-Feira 13 de Setembro que sua mãe conheceu o rosto enrugado e percebeu que não era o David (sobre o qual) tanto conversara durante 9 meses. Daí para a frente foi muitos nomes a até se assentar como Cátia. Cresceu pensando que iria ser modista, mas não tinha muito jeito para fazer costuras e braguilhas. Virou-se para a arqueologia e seguiu outro caminho, a música, os filmes e a rádio. Seguiu-se dos seus amores de garota. Ainda hoje procura as agulhas do seu giradiscos portátil na bainha de um vestido rosa da moda. É muito feliz e gosta de sorrir.
Cláudia Köver

Tem os ensinamentos anglo-saxónicos cravados nas sardas e o amor às artes nas pontas dos dedos. O gosto pela manta das Relações Internacionais, adquirido pelos retalhos da herança familiar, consome-se nas almofadas do mestrado. Seguiu um coelho branco e calçou os saltos de jornalista EM que de momento lhe assentam os pés. Deixou pequenas pegadas nas páginas da “Pública”, da revista “Nós” do Jornal i, do Jornal Briefing e da televisão Arte. Incapaz de se manter fiel ao amor por um só par de sapatos, fez cursos em instituições europeias e teve aulas de representação em palco poeirento. Infelizmente, não teve dom para fazer dinheiro como viajante, mas soma este aos restantes vícios: desde a última tarde de 86 que não se inibe de sorrir e sonhar.
Inês Leão

Registada na bela freguesia de Mem Martins, Inês teve uma infância feliz, até ao dia que teve de abandonar o ballet por ter as pernas tortas (erro que nunca foi corrigido pelas botas ortopédicas ora azuis ora castanhas, que usou até tarde). Sempre gostou muito de desenhar, tendo como maiores influências os filmes clássicos da Disney, a Barbie e o seu pai. Quando teve de escolher a sua área optou por artes, por não ter matemática, não fazendo ideia que teria de gramar com geometria descritiva. É recém-chegada no design e o seu sonho é ser uma designer de sucesso, trabalhando a partir do seu iate privado na marina da Costa Nova, na Ria de Aveiro.
João Gomes de Almeida

Divide o tempo entre a editora e revista on-line Nicotina, o Perguntas Proibidas na Rádio Europa e o seu pequeno bar / livraria Les Enfants Terribles, no Saldanha Residence. Já lançou dois livros, quer casar e ter filhos.
Também no Twitter
E ainda no Facebook
Nuno Miguel Guedes

Nuno Miguel Guedes nasceu em Lisboa em 1964. Jornalista, esteve no inicio de O Independente, de onde saiu em 1990 para a revista Kapa, de que foi co-fundador e co-afundador. Escreve para várias publicações e é colaborador pemanente da revista Visão (cultura) Letrista sempre que o deixam, guionista de televisão, bloguista, DJ ocasional, anglófilo, fanático da Académica e de livros. Nos tempos livres pratica o dry martini.
Pedro Rainho

Nasceu no iníco da década de 60, na vila de Sintra. Filho de família aristocrata, cedo forçou-se a desiludi-la. Aos 14 anos já estava ilegalmente no MRPP, onde foi companheiro de luta académica de Durão Barroso, na Faculdade de Direito. Mal acabou o curso viu nascer Abril e ingressou no jornalismo. Tornou-se barbudo e descobriu o fado, a monarquia e os touros. Por esses quatro motivos entrou com o Nuno Miguel Guedes no PPM e dedicou-se ao jornalismo como paquete de Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso n'O Independente. Escreveu três ensaios sobre literatura russa medieval, traduzidos em mandarím e tchecheno. Deu aulas na Independente e consumiu marijuana com o comandante Zapata, durante uma fotoreportagem. Tudo isto é mentira - mas bem que podia ser verdade, não tivesse ele nascido na década de oitenta e ser um jovem jornalista precário. É o que dá ser novo.
Tomás Vasques

Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de amigos, cerveja e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância e o autoritarismo. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.